quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

DISTINÇÃO ENTRE A SANTIFICAÇÃO E A JUSTIFICAÇÃO | J. C. Ryle



No que concordam e no que diferem? Esta distinção é importantíssima, mesmo que à primeira vista não pareça. Em geral as pessoas mostram certa predisposição em considerar só o superficial da fé, e a relegar as distinções teológicas como “meras palavras” que não têm nenhum valor. Eu exorto àqueles que se preocupam com suas almas a que se esforçam por obter noções claras sobre a santificação e justificação. Lembremo-nos de que mesmo que a justificação e a santificação sejam coisas distintas, no entanto em certos pontos são concordantes e em outros diferem. Vejamos:

Pontos concordantes:

1.    Ambas procedem e têm origem na livre graça de Deus.
2.    Ambas são parte do grande plano de salvação que Cristo, no pacto eterno, tomou sobre si em favor de seu povo. Cristo é a fonte de vida de onde flui o perdão e a santidade. A raiz de ambas está em Cristo.
3.    Ambas se encontram na mesma pessoa. Os que são justificados são também santificados, e aqueles que têm sido santificados, têm sido também justificados. Deus as têm unido e não podem separar-se.
4.    Ambas acontecem ao mesmo tempo. No momento em que uma pessoa é justificada, começa a ser santificada, mesmo que a princípio não se perceba.
5.    Ambas são necessárias para a salvação. Jamais ninguém entrará no céu sem coração regenerado e sem o perdão de seus pecados, sem o sangue de Cristo e sem a graça do Espírito, sem a disposição apropriada para gozar da glória e sem credencial para a mesma.

Pontos em que diferem:

1.    Pela justificação, a justiça de outro – de Jesus Cristo – é imputada, posta na conta do pecador. Pela santificação o pecador convertido experimenta em seu interior uma obra que o vai fazendo justo. Em outras palavras, pela justificação somos considerados justos (declarados), enquanto que pela santificação somos feitos justos.
2.    A justiça da justificação não é própria, mas que é a justificação eterna e perfeita de nosso maravilhoso Mediador Cristo Jesus, a qual nos é imputada e a fazemos nossa pela fé. A justiça da santificação é a nossa própria, inerente e infundida em nós pelo Espírito Santo, porém mesclado com fraquezas e imperfeições.
3.    Na justificação não há lugar para nossas obras. Porém na santificação a importância de nossas próprias obras é imensa e por isso Deus nos ordena a lutar, orar, velar, nos esforçar, afadigar e trabalhar.
4.    A justificação é uma obra acabada e completa; no momento em que uma pessoa crê, é justificada, perfeitamente justificada. A santificação é uma obra relativamente imperfeita: será perfeita quando entrarmos no céu.
5.    A justificação não admite crescimento nem é susceptível de aumento. O crente goza da mesma justificação no momento que vai a Cristo pela fé, que daquela que gozará por toda eternidade. A santificação é, eminente, uma obra progressiva, e admite um crescimento contínuo enquanto o crente vive.
6.    A justificação faz referencia a pessoa do crente, a sua posição diante de Deus e a absolvição de sua culpa. A santificação faz referencia a natureza do crente, e a renovação moral do coração.
7.    A justificação é um ato de Deus com referência ao crente, e não é discernível para os outros. A santificação é uma obra de Deus dentro do crente que não pode deixar de manifestar-se aos olhos dos outros.

Estas distinções são postas para atenta consideração dos leitores. Estou convencido de que grande parte das dúvidas, confusão e inclusive sofrimento de algumas pessoas muitos sinceras, se deve ao fato de se confundir e não distinguir a santificação da justificação. Nunca se poderá se enfatizar demais o que se trata de duas coisas distintas, ao que na realidade não pode separar-se, e o que participa de uma por necessidade há de participar da outra. Porém nunca, nunca, deve confundir-se, duvidar-se, a distinção que existe entre ambas.


John Charles Ryle (1816 – 1900) serviu por quase quarenta anos como ministro do Evangelho, antes de ser indicado como primeiro bispo de Liverpool (Inglaterra), em 1880.

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Texto extraído do livro: “Cultivando a Santidade”; RYLE, J. C. & BEEKE, J; Ed. Os Puritanos. P. 27-29