domingo, 25 de setembro de 2016

FUMAÇA NA MONTANHA | Joy Davidman



Por Joy Davidman 1

Para muitos contemporâneos, Deus reduziu-se a uma nobre abstração, uma tendência histórica, um objetivo evolutivo; transformou-se numa concepção rarefeita, útil organizador a paz mundial – algo bom como uma ideia. Mas não a Palavra que se fez carne, que morreu por nós e ressuscitou dentre os mortos. Não uma personalidade pela qual o homem pode sentir amor. E não, certamente, o eterno amante que tomou a iniciativa de apaixonar-se por nós.

Pensar em Deus como um amante que busca seu amor é razão de escândalo? Então o cristianismo escandaliza. Se aceitarmos o supernatural apenas como algo demasiado fraco e passivo que não interfere na esfera natural, melhor seria considerarmo-nos materialistas e esquecer o assunto – ganharemos em honestidade o que perdermos em respeitabilidade. Aqui vai um teste para saber se a sua fá é algo mais do que uma fé aguada. Suponhamos que hoje à noite o Espírito Santo leve você para as alturas do espaço, profira uma mensagem para sua consciência, depois invisivelmente deixe você de novo seguro na sua caminhada. Você vai considerar a possibilidade de que essa experiência é genuína? Ou vai concluir de imediato que você deve estar maluco e sai gritando à procura de um psiquiatra?

Aqui está outro teste, mais prático – pois é muitíssimo provável que bem poucos dentre nós sejam arrebatados da cama hoje à noite. Você acha que o cristianismo é primeiramente precioso como um meio prático de resolver nosso “verdadeiro” problema – isto é, como construir uma sociedade permanentemente sadia, rica e sábia neste mundo? Se a resposta for afirmativa, você é pelo menos meio materialista, e algum dia os marxistas poderão chamá-lo de camarada.

Tão forte é o clima opinativo materialista que até os cristãos convictos às vezes se sentem forçados a defender o cristianismo contra a acusação de ele “ser de outro mundo” – reduzindo-lhe o valor de passaporte para o céu em prol de sua utilidade como projeto acabado para reformar o mundo. No entanto, não devemos acusar exclusivamente o progresso científico ocidental pelo apego a este mundo, como se o materialismo houvesse esperado que Edison o inventasse. De modo algum. A Roma de Lucrécio, a Atenas de Epicuro – até o Israel de Eclesiastes – certamente não careceram de filósofos materialistas. 

A devoção ao príncipe deste mundo é uma das tentações antigas, e talvez nossos remotos ancestrais mal haviam inventado a funda quando se ergueram sobre as pernas traseiras e proclamaram que seu progresso técnico agora lhes permitia dispensar a religião. A escolha que se nos apresenta hoje é simplesmente a mesma de sempre: saber se devemos ser deste ou de outro mundo; se devemos viver num egoísmo sem amor ou viver para amar a Deus.


Texto extraído do livro: “A Biblioteca de C. S. Lewis”; BELL, James S. & DAWSON, Anthony; Ed. Mundo Cristão. P. 20-21
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1 Joy Davidman foi esposa de C. S. Lewis por pouco mais de três anos. Casaram-se em 23 de abril de 1956. Joy faleceleu, vítima de um câncer, em 13 de julho de 1960. Joy Davidman dedicou o seu talento de escritora ao Partido Comunista. Como muitas outras pessoas, durante a Grande Depressão da década de 1930, Davidman se tornara ateia e comunista, convencida de que a ação social radical era a única solução para as agruras econômicas dos Estados Unidos. Casou-se com Billk Gresham, companheiro do Partido Comunista, que combateu do lado socialista na Guerra Civil da Espanha. Gresham era alcoólatra e tinha outras mulheres. Após o casamento conturbado, Davidman encontrou-se com Deus repentinamente e inesperadamente, no inicio da primavera de 1946. Tendo descoberto Deus, Davidman começou a explorar o novo território de sua fé. Seu guia principal foi um autor inglês [e futuro marido] que recentemente se tornara famoso nos E.U.A – C. S. Lewis. O Grande Abismo, Milagres e Cartas de um diabo a seu aprendiz tornaram-se para ela a porta de entrada para uma fé intelectualmente enriquecida e robusta. Todavia, enquanto outros procuraram simplesmente os conselhos de Lewis, Davidman procurou sua alma. (A vida de C. S. Lewis, McGRATH, Alister; Mundo Cristão; p. 334-335)


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