quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O DESGOSTO DO SABER



Por Fabio Campos


Salomão, considerado o homem mais sábio depois de Jesus (Mt 12.42), escreveu algo no mínimo intrigante: “... quanto maior a sabedoria maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto” (Ec 1.18 NVI).

Mas quem ousaria colocar em cheque a sabedoria de Salomão? O velho pregador tinha algo a passar sobre a busca pela felicidade e pelo entendimento a respeito do sentido da vida. Ele empreendeu esforço em compreender a sabedoria, bem como a insensatez; elaborou grandes projetos. Foi famoso! Tornou-se o rei mais poderoso que já vivera em Jerusalém. 

Salomão nunca passou vontade; tudo o que seus olhos desejaram ele realizou; não negou nenhum dos prazeres do seu coração. Porém, se frustrou, quando descobriu que não havia qualquer proveito naquilo que ele conquistara. 

O rei, contudo, se entregou ao saber; cumulou enfado e caiu no desgosto. 

O conhecimento joga a realidade na “nossa cara”. Não é possível não se angustiar diante do saber, a menos que você tome uma atitude cínica da vida e case com a ignorância. 

Vejam os gênios; são de poucos risos. De fato é loucura rir o tempo todo (Ec 2.2). Não há sabedoria nisto! Contrário do que é dito, o coração do sábio está na casa do luto, mas o dos tolos, na casa da alegria (Ec 7.4). É só alegria; festa o tempo todo. Isso não é bom! 

Há mais sabedoria e reflexão no velório do que no desfrute da festa. É no luto que pensamos seriamente sobre a nossa própria morte. O sábio Salomão, a respeito disto, adverte: “os vivos devem levar isso a sério” (Ec 7.2). Outro sábio, porém não canônico, disse que há apenas três coisas que podemos fazer em relação a morte: desejá-la, temê-la ou ignorá-la. A terceira alternativa, que o mundo moderno chama “saudável” é com certeza a mais inquietante e precária de todas.1
 
Os gênios e sábios, a exemplo de Salomão, sabem que são meros mortais fadados a sepultura. O homem pode até ter o saber, mas o saber jamais será completo, pois o “realizar” não lhe compete. Eis aí a luta no pináculo dos corações; o conflito entre querer e realizar. Assim como fez Salomão, a fuga de muitos, é a embriagues e a extravagância; todas suas forças são empreendidas na tentativa de entorpecer seus sentidos racionais obtidos por essa sabedoria. 

Os sábios e gênios, muitos deles são tristes; entregues ao álcool, as drogas e ao sexo desenfreado. 

Mas é importante salientar que a ignorância não é virtude. Com efeito, quanto menos se sabe mais momentos de felicidade são desfrutados sem a culpa; a culpa que fere a nossa consciência e nos desperta para a realidade das coisas. A ignorância, portanto, é o antidepressivo que embriaga a consciência diante da realidade de mundo. O sujeito ignorante a despeito da realidade é igual ao homem que vive sob efeito de calmante. Para ele tudo se encontra na “santa paz”! 

Dizem que a galera que curte um “baseado”, é o pessoal da paz. Faça o teste para saber se isto de fato é verdade; tire o cigarro de maconha das mãos deles antes do primeiro trago. Entregue a realidade pra eles. Será que tudo permanecerá na “paz de jah”? 

No mesmo caráter, entregue o saber ao ignorante e logo ele se angustiará. O saber conscientiza que tudo que se encontra debaixo do sol não faz sentido. Tudo permanece da mesma forma ainda que nada tenha mudado. Tudo é canseira, enfado; nada satisfaz. O sábio é consciente de que ele está correndo atrás do vento. Este é o drama a agonia humana!

Mesmo com o desgosto do saber, a sabedoria é melhor que a insensatez, assim como a luz é melhor do que as trevas. O sábio enxerga! O ignorante, entretanto, anda nas trevas do discernimento. “O tempo e o acaso afetam a todos” (Ec 9.11). De fato a sabedoria oferece proteção e prolonga a vida de quem a possui, no entanto, no final, o destino dois é o mesmo, a saber, a morte. 

A lei suprema que transcende o saber é efetiva sob aquele que agrada a Deus: “Ao homem que o agrada, Deus recompensa com sabedoria, conhecimento e felicidade. Quanto ao pecador, Deus o encarrega de ajuntar e armazenar riquezas para entrega-las a quem o agrada” (Ec 2.26). Ainda assim, por aqui, isso é inútil, como disse Salomão, é “correr atrás do vento”. 

Tudo assim foi feito para que o homem não compreenda inteiramente o que Deus fez. Por isso, “quanto maior a sabedoria maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto” (Ec 1.18 NVI).


Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,


Soli Deo Gloria!

Fabio Campos

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Notas:
1 LEWIS, C. S.  Cartas a uma senhora americana, p. 103