domingo, 26 de junho de 2016

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE C. S. LEWIS – Parte 1



Dirigi até Cambridge, Inglaterra, no dia 7 de maio [1963] para entrevistar o Sr. Clive Staples Lewis, autor de Cartas de Um Diabo a seu Aprendiz e um dos mais lidos e brilhantes autores cristãos do mundo. Eu esperava aprender com ele como os jovens, homens e mulheres, deveriam ser encorajados a assumir a defesa da fé através da palavra escrita.

De imediato ficou evidente que esta entrevista seria diferente de qualquer outra que eu já havia feito. Encontrei o Sr. Lewis em uma ala do quadrilátero de tijolos na Magdalene College, Universidade de Cambridge, onde é professor de Literatura Medieval e Renascentista. Subi um lance de degraus de madeira incrivelmente gastos e estreitos, bati em uma porta de madeira antiga com uma simples designação: “Prof. Lewis”, e fui apresentado pela governanta.


Passando por uma sala de estar decorada com simplicidade, cheguei a um homem bastante espartano em sua aparência. O Professor Lewis estava sentado em uma mesa simples sobre a qual repousava um despertador antiquado e um tinteiro igualmente antiquado. Fui imediatamente aquecido por seu sorriso jovial e pela forma cordial com a qual ele se levantou para me cumprimentar; ele se parecia com o clássico, amigável e bem disposto “Englishman” (homem inglês). Ele indicou uma cadeira de encosto reto, depois sentou-se, confortável em sua jaqueta de tweed e duas blusas, e assim começamos.

Wirt: Professor Lewis, se você tivesse um jovem amigo com algum interesse em escrever sobre temas cristãos, como você o aconselharia a preparar-se?

Lewis: Eu diria que, se um homem vai escrever sobre química, ele deve aprender química. O mesmo vale para o Cristianismo. Mas falando sobre a habilidade em si, eu não saberia como aconselhar um homem sobre como ele deve escrever. É uma questão de talento e interesse. Eu acredito que ele deva estar profundamente movido se realmente tiver interesse em tornar-se um escritor. Escrever é como um “desejo”, ou como “coçar um local que o incomoda”. A escrita vem como resultado deste impulso, e quando ele vem, eu devo agarrá-lo.

Wirt: Você poderia sugerir uma abordagem que desencadeasse a formação de um corpo literário cristão forte o suficiente para influenciar nossa geração?

Lewis: Não existe uma fórmula para estas questões. Eu não tenho nenhuma receita, nenhuma “pílula mágica” para isso. Escritores são formados individualmente de tantas maneiras que não nos é possível prescrever algo assim. A própria Escritura não é sistemática; o Novo Testamento apresenta bastante variedade. Deus nos tem mostrado que ele pode usar qualquer instrumento. A jumenta de Balaão, como você deve se lembrar, pregou um sermão muito eficaz em meio a seus zurros.

A esta altura a coragem do homem que eu entrevistava era evidente. Decidi mudar então para um terreno mais aberto.

Wirt: Uma das características de sua escrita tem sido a abordagem leve mesmo em temas teológicos mais pesados. Você diria que há uma chave para o cultivo desta atitude?

Lewis: Eu acredito que esta é uma questão de temperamento. Entretanto, fui auxiliado por meus estudos sobre os homens eruditos da Idade Média e pelos escritos de G. K. Chesterton para alcançar essa atitude. Chesterton, por exemplo, não tinha receio em combinar temas cristãos importantes com humor. Da mesma forma as peças sobre milagres da Idade Média iriam lidar com temas sagrados, como o nascimento de Cristo; ainda que o vinculando a uma comédia dramática.

Wirt: Os escritores cristãos deveriam, então, na sua opinião, tentar serem mais engraçados?

Lewis: Não. Eu considero jocosidades forçadas sobre temas espirituais uma abominação, e as tentativas de alguns escritores religiosos em serem engraçados simplesmente terríveis. Algumas pessoas escrevem de maneira pesada, algumas escrevem de maneira muito leve. Eu prefiro esta abordagem mais leve pois acredito que há muita falsa reverência sobre o assunto. Há muita solenidade e intensidade ao lidar com assuntos sagrados, muitos falando nesse tom.

Wirt: Mas esta solenidade não é a abordagem mais adequada e propícia para um ambiente sagrado?

Lewis: Sim e não. Há uma diferença entre uma vida devocional privada e uma vida corporativa. A solenidade é adequada na igreja, mas as coisas que são apropriadas na igreja não são, necessariamente, apropriadas fora dela, e vice-versa. Por exemplo, posso fazer uma oração enquanto escovo os dentes, mas isto não significa que eu deva escová-los durante o culto público.

Wirt: Qual é sua opinião sobre o tipo de escrita que está sendo feito dentro da igreja cristã atual?

Lewis: Grande parte do que está sendo publicado por escritores da tradição religiosa é um escândalo e está, na verdade, afastando as pessoas para longe da igreja. Os escritores liberais que estão continuamente acomodando e reduzindo gradualmente a verdade do Evangelho são os responsáveis. Eu não consigo entender como um homem pode aparecer na imprensa afirmando não acreditar em tudo o que ele pressupõe, enquanto veste a sobrepeliz. Eu sinto que é isto uma forma de prostituição.

Wirt: O que acha sobre o novo e controverso livro, Honest to God (Honesto com Deus), de John Robinson, o bispo de Woolwich?

Lewis: Eu prefiro ser honesto do que ser ‘Honesto com Deus’.

Wirt: Que escritores cristãos têm ajudado você?

Lewis: O livro contemporâneo que mais tem me ajudado é O Homem Eterno (The Everlasting Man), de Chesterton. Alguns outros são Simbolismo e Crença (Symbolism and Belief), de Edwyn Bevan, A Ideia do Sagrado (The Idea of the Holy), de Rudolf Otto, e as peças de Dorothy Sayers.

Wirt: Creio que foi Chesterton quem foi questionado por qual motivo ele se tornou um membro da igreja, e ele respondeu: “Para me livrar dos meus pecados.”

Nesse ponto, eu fui surpreendido pela rapidez da resposta do Professor Lewis.

Lewis: “Querer se livrar de seus pecados não é suficiente”, ele disse. “Nós também precisamos acreditar n’Aquele que nos salva de nossos pecados. Não só precisamos reconhecer que somos pecadores; precisamos acreditar em um Salvador que retira o pecado. Matthew Arnold certa vez escreveu: ‘O estar faminto não prova que temos pão’. Porque sabemos que somos pecadores, não significa que estamos salvos.”

Wirt: Em seu livro Surpreendido pela Alegria, você menciona que foi trazido para a fé ressentido, lutando, com olhos correndo em todas as direções procurando por uma fuga. Você sugere que foi obrigado, por assim dizer, a se tornar um cristão. Você sente que fez uma decisão no momento de sua conversão?

Lewis: Eu não colocaria dessa forma. O que eu escrevi em Surpreendido pela Alegria foi que ‘antes de Deus aproximar-se de mim, me ofereceram o que agora parece um momento de total liberdade de escolha’. Mas eu sinto que minha decisão não foi tão importante. Neste caso, eu era o objeto ao invés de ser o assunto. Eu estava decidido. Senti-me feliz com o modo como tudo se resolveu, mas, naquele momento, o que eu ouvi Deus dizendo foi: ‘Abaixe sua arma e iremos conversar’.


Wirt: Isso soa para mim como se você houvesse chegado a um ponto de decisão muito bem definido.

Lewis: Bem, eu diria que a ação mais profundamente compelida é, também, a ação mais livre. Com isso, quero dizer que nenhuma parte de você está fora da ação. É um paradoxo. Eu expressei isso em Surpreendido pela Alegria, dizendo que fiz uma escolha, apesar de não parecer ser possível fazer o oposto.


Wirt: Você escreveu há 20 anos que “um homem que foi apenas um homem e disse o tipo de coisas que Jesus disse não seria um grande professor da moral. Ou ele seria um lunático — no mesmo nível que o homem que afirma que ele seja um ovo cozido — ou o próprio demônio. Você deve fazer a sua escolha. Ou esse homem foi, e é, o Filho de Deus; ou é um louco ou algo pior. Você pode tomá-lo por um tolo; você pode cuspir nele e matá-lo como um demônio; ou você pode cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas devemos deixar de virmos com essa bobagem de que Jesus era apenas um grande mestre. Ele não deixou uma opção em aberto para que criássemos este tipo de conjecturas.”

Você diria que a sua visão acerca deste assunto tenha mudado desde então?

Lewis: Eu diria que não há nenhuma mudança substancial.

Wirt: Você diria que o objetivo da escrita cristã, incluindo a sua, é provocar um encontro do leitor com Jesus Cristo?

Lewis: Esta não é minha linguagem, porém, é o objetivo que tenho em vista. Por exemplo, eu acabei de terminar um livro sobre oração¹, uma correspondência imaginária com alguém que levanta questões sobre as dificuldades que tem em suas orações.

Wirt: Como podemos promover o encontro destas pessoas com Jesus Cristo?

Lewis: Você não pode estabelecer qualquer padrão para Deus. Há muitas maneiras diferentes de trazer as pessoas para o seu Reino, até mesmo algumas que eu especialmente não gosto! Tenho, portanto, aprendido a ser cauteloso em meu julgamento.

Mas nós podemos bloquear este encontro de muitas maneiras. Como cristãos, somos tentados a fazer concessões desnecessárias para aqueles que não estão na fé. Cedemos em demasia. Agora, eu não quero dizer que devemos correr o risco de fazer de nós mesmos um estorvo, testemunhando em horários impróprios, mas chega um momento em que temos de mostrar que não estamos de acordo. Devemos apresentar nossa identidade cristã se quisermos ser fiéis a Jesus Cristo. Não podemos permanecer em silêncio ou conceder em tudo.

Há um personagem em uma de minhas histórias infantis chamado Aslam, que diz: ‘A cada um eu só conto a história que lhe pertence’. Eu não posso falar pela maneira com a qual Deus lida com os outros; eu apenas sei como ele lida comigo pessoalmente. É claro, oramos por um despertar espiritual, e podemos fazer alguma coisa por isso de várias maneiras. Mas devemos lembrar que nem Paulo ou Apolo promoveram o crescimento². Como Charles Williams disse uma vez: ‘O altar deve geralmente ser construído em um só lugar para que o fogo possa surgir em outros lugares.

Este artigo foi retirado da Decision magazine, Setembro de 1963; © 1963 Billy Graham Evangelistic Association.

Por Sherwood Eliot Wirt
Assist News Service
CBN.com – CAMBRIDGE, INGLATERRA (ANS)
Tradução: Carla Laurentino
Revisão: Andrias Silva

Para acessar o texto original em inglês: clique aqui.

¹ “Oração: Cartas a Malcon”
² Mas Deus, conforme 1 Coríntios 3:6