quarta-feira, 13 de abril de 2016

QUANDO A PIEDADE É EXERCIDA PELO “ÍMPIO”



Por Fabio Campos

Texto base: “Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele.” – Lucas 10.33 (NVI)


Já faz um tempo que uma inquietação tem me levado a seguinte reflexão: “Por que a medida de misericórdia é tão rasa na casa de muitos cristãos”? Por que há tanta dificuldade em abrir um particular “comprometedor”, de foro íntimo, com um religioso? Por que nos sentimos mais a vontade com pessoas que não são “demasiadamente justas” (Ec 7.16)? Por quê? Por que temos tanto medo de nos expor a pessoas que são “corretíssimas” em suas práticas? 

Por estes dias, voltando do supermercado com minha amada esposa - fui surpreendido numa situação que me constrangeu e me encorajou a refletir sobre este tema.

No caminho avistamos um gatinho que acabara de ser atropelado. Lá estava, no meio da rua, estirado no chão. Não havia mais nada a ser feito, pois já estava morto. As pessoas passavam e viravam o rosto com certo “nojo” (confesso, fiz o mesmo!). Um travesti, entretanto, se compadeceu do gato. Levando um jornal em suas mãos, cuidadosamente, retirou o bichano do meio da rua. O carinho e cuidado que aquele rapaz teve com o gato morto foi notório. Cena de filme. 

Achei incrível, aquilo! O ato daquele rapaz - a misericórdia que ele teve de um animal morto e sujo de sangue – me fez perguntar: Por que não vemos atitudes parecidas na casa de algumas famílias que professam o cristianismo? O travesti teve misericórdia de um gato morto que se encontrava no meio da rua; porém, muitas das vezes, o religioso não tem misericórdia para com os erros de seus próprios filhos. Triste, mas isto é uma realidade!

Esse fato me levou até a parábola do bom samaritano contada pelo Senhor Jesus. Por que será que Jesus escolheu por parâmetro, o “herege” do samaritano, para ensinar os mestres ortodoxos o que é de fato conhecer a lei? Pois é, o “endemoninhado” do samaritano foi o exemplo de piedade qual Jesus usou para ensinar os religiosos acerca da vontade de Deus: “Eu quero misericórdia!” Jesus usou, para os judeus da época, o pior tipo de gente como exemplo. Todos os 613 preceitos da lei que os fariseus tentavam guardar rigorosamente, Jesus, no entanto, resumiu em apenas dois: “Amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo”! 

Um samaritano foi exposto para ensina-los que a vida piedosa não se baseia no tanto de conhecimento teológico adquirido, mas na prática desprovida de medo das possíveis implicações do fato do “não cumprimento a lei”. O samaritano fez porque ele era assim. É como o sol que não pode mudar sua essência para brilhar somente sobre os bons. Ele tão somente brilha! 

O samaritano praticou a lei naturalmente, embora não a possuísse de forma clara como os judeus. Ele mostrou que a exigência escrita na Torá estava gravada em seu coração (Rm 2.15). Ortodoxia não é provada com “argumentos”, mas com atitudes; não se trata de refutações, mas do exercício de misericórdia para com o próximo. É triste saber que há mais graça e misericórdia fora dos ambientes religiosos do que dentro das igrejas. 

Muitos filhos não voltam para a casa de seus pais como fez o filho pródigo, por causa do extremo rigor e a aplicação legalista da justiça. Se Deus registrasse todas as nossas falhas, quem escaparia (Sl 103.3)? Será que um gato não vale mais que uma pessoa feita à imagem e semelhança de Deus? 

C. S. Lewis, escritor do século passado, disse que “de todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores”. “Acautelai-vos dos maus obreiros” (Ef 3.2). A religião matou Jesus em nome de Deus. Que paradoxo, né!? 

Não foi o sacerdote e nem o levita que cumpriu a lei, mas o “herege” do samaritano. Ele não tinha a ortodoxia na mente como tinha os peritos da lei. Ela, contudo, estava fincada em seu coração.

A teologia perfeita consiste em duas matérias: 1) amar a Deus acima de tudo e 2) amar o próximo como a si mesmo; o resto, é nota de rodapé! A melhor forma de demonstrar amor para com Deus se encontra no exercício de misericórdia que empreendemos para com o próximo, como Ele mesmo disse: “Desejo misericórdia, não sacrifícios”. Qual era o público alvo de Jesus a despeito da exortação? Os fariseus, o pessoal mais “santo”. Precisamos entender que ele não trata com justos, mas pecadores. 

A religião potencializa o homem a cometer atrocidades sem o sentimento da culpa. Este não é o Espírito de Cristo. Creio que fosse difícil ser igual aos fariseus, com todas suas práticas. Porém, mais difícil ainda é ser seguidor do Senhor Jesus: “Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus” (Mt 5.20). Negligenciar a justiça, a misericórdia e a fidelidade, que são os preceitos mais importantes, é negar toda a lei (Mt 23.23). O assunto é mais sério do que imaginamos! 

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5.7). Se você for alguém que não precisa de misericórdia, por favor, desconsidere o texto. Mas, se você está na mesma situação que a minha, pensemos juntos e supliquemos a graça de Deus para que possamos exercitá-la com aqueles que carecem dela. Certamente desfrutaremos deste benefício quando formos encontrados em falta.

Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos
fabio.solafide@gmail.com

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

A NECESSIDADE UNIVERSAL DA SALVAÇÃO EM CRISTO



Escola Bíblica Dominical – 10 de Abril de 2016 | Lição 2

Texto Áureo: Rm 3.10

Verdade prática: O pecado manchou toda a raça humana e somente o sangue de Cristo é suficiente para purificá-la.

Leitura bíblica em classe: Romanos 1. 18-20, 25-27; 2.1, 17-21

Explicação do texto: 

a. O texto lido da carta de romanos, nos leva pelo menos à duas considerações teológicas: 1) Sem o amor, Deus seria severo; 2) sem a justiça, Deus seria indulgente. Portanto, Deus é ao mesmo tempo amoroso e justo.

b. O texto também trata da “revelação” de Deus por meio dos seus atributos (aos gentios). Deus é manifesto também por meio da criação, o que, de fato, torna o homem indesculpável no juízo. (O Deus invisível se manifestou através das coisas visíveis).

c. No capitulo 2, Paulo, trata com os judeus rebeldes; os judeus que não receberem a Cristo serão julgados segundo as maldições da aliança (Dt 38 -30).

REFLEXÃO E OBJETIVO DA AULA: 1) Apontar a necessidade de salvação dos gentios; 2) Mostrar a necessidade de salvação dos judeus; 3) Explicar a necessidade de salvação da humanidade.

INTRODUÇÃO:

a. Todos os homens, indistintamente, estão sob juízo: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23).

b. O pecado abarcou a todos. Os que possuíam a lei (mosaica) e aos que possuem a lei noaica (lei natural). Segundo a filosofia grega do estoicismo, a consciência é o critério divino presente em todos os seres humanos. 

c. Deus separou um povo para um propósito específico, como foi dito a Abrão: “Através da sua descendência todas as nações serão benditas”. 

d. Deus a cumpriu enviando Seu Filho Jesus, descendente de Abrão, para salvar judeus e gentios. 

I. A NECESSIDADE DA SALVAÇÃO DOS GENTIOS (Rm 1.18-32)

1. A rejeição.

a. O homem criou a religião para dar um certo conforto a sua consciência culpada.

b. Ele sempre quis estar no controle do seu próprio destino: “e sereis como Deus”, disse a serpente no jardim do Éden.

c. Os ídolos criados nada mais são que “deuses” que podem ser dominados pelos seus criadores: “serviram a criatura em lugar do Criador”. 

d. Não é existe “deuses” de fato; o que existe são criações de homens que as chamam de deus. Porém, Nosso Deus é criador.

“Todos os deuses das nações não passam de ídolos, mas o Senhor fez os céus.” – Salmos 96.5 (NVI).

2. A revelação.

a. Os gentios pecaram contra a revelação natural e os judeus contra a revelação especial.

b. Há uma discordância entre protestantes e católicos no que concerne se é possível conhecer a Deus de forma redentora com base apenas no testemunho da criação e da consciência.

c. O catolicismo chama isso de teologia natural (reconhecimento de uma transcendência divina interior), enquanto que, protestantes, revelação natural (o homem só é aceito por Deus ao receber seu Filho como Salvador).

d. O argumento mais coerente com as escrituras é o protestante; Paulo argumenta isso em Rm 1.18-32.

e. De toda forma, como afirma o Rev. Hernandes Dias Lopes, “a criação é testemunha de Deus. A natureza revela conhecimento. Há uma voz que é ouvida onde quer que seres humanos vivam, estejam eles com ou sem a Bíblia. É a voz da criação (Sl 19.1-3). Mesmo aqueles que não dispõem da Bíblia têm conhecimento suficiente de Deus a ponto de serem indesculpáveis” (At 14.17).1

f. Portanto, a ira de Deus é contra a insensibilidade do homem em rejeitar o interesse pelo conhecimento de Deus. Deus se revela por meio de seus atributos e pela criação -, ou seja, pela revelação natural. Mas o conhecimento perfeito se dá por conta da revelação especial, a saber, Jesus Cristo.

g. A revelação geral simplesmente é o meio para despertar o homem para a realidade espiritual para que ele possa buscar o conhecimento do verdadeiro e único Deus.

3. A punição.

a. O ponto principal que Paulo aborda a respeito desta “rejeição” do Criador: Entregar essas pessoas à suas próprias paixões para sofrer as consequências de conseguirem o que desejam. Em outras palavras, se tornam semelhantes àquilo que adoram.

b. O maior castigo que Deus pode aplicar à alguém, é não castiga-lo. (temor antes do pecado e tristeza após o pecado). Quando Deus tira a culpa, o homem consegue pecar sem que a consciência o acuse. A culpa é um meio de graça pelo qual Deus incute em nós para não sermos condenados com o mundo (1 Co 11.32).

c. Homens obstinados e entregues aos seus próprios caprichos anda de forma a desonrar o seu corpo, a sua moral e a sua espiritualidade:

“A história do mundo confirma que a tendência da idolatria é acabar em imoralidade. Uma falsa imagem de Deus leva a um falso conceito do sexo.” 2  – John Stott

SÍNTESE DO TÓPICO I

Os gentios necessitam de salvação, pois também foram afetados pela queda.

II. A NECESSIDADE DE SALVAÇÃO DOS JUDEUS (Rm 2.1-3.8)

1. Os judeus em relação aos gentios.

a. Paulo valeu-se do método de “diatribe” para escrever sua carta aos romanos.

b. Talvez os judeus se sentiram aliviados ao ler a exposição de Paulo a respeito do estado depravado dos gentios. 

c. Entretanto, Paulo, também expôs o moralismo dos judeus dizendo que todos, indistintamente, estavam na mesma condição de condenação (Rm 2.1-3).

d. Eles praticavam o que condenavam. Por quê? O fato de ter a revelação, entretanto, sem a prática (praxe), é semelhante ao homem que vê sua face no espelho e logo a esquece (Tg 1. 22-24).

e. O problema do homem não reside no seu intelecto, no tanto de informação que ele possui, mas em sua natureza. A questão não é metafísica, mas moral.

f. Portanto, todos os homens, sabedores ou não dos preceitos de Deus, devem nascer de novo, assim como foi dito a Nicodemos (Jo 3.3).

2. Os judeus em relação à lei.

a. Paulo sabia a respeito do privilégio dos judeus para com Deus. 

b. Entretanto, conhecimento sem obediência, é um falso refúgio. Os judeus se escondiam no fato de conhecer a lei mesmo sem praticá-la. 

c. Essa postura conduziu os judeus da época de Paulo a uma arrogância e prepotência para com os demais povos, sendo, portanto, contrário ao chamado de Deus: “através de ti (Abraão), todas as nações serão benditas” (Gn 12.3). 

d. Por isso, tanto judeus como gentios eram culpados diante de Deus. Os gentios pela revelação geral; os judeus, pela revelação especial.

e. Porém, os judeus estavam em pior situação já que a eles foi dado mais, como está escrito: 

“Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vocês.” – Mateus 11.22-23 (NVI)

3. Os judeus em relação à aliança.

a. Paulo diz que há muitas vantagens em ser judeu. Esse foi o povo escolhido por Deus para conhecer de forma especial os seus decretos.

b. Foi o povo chamado para ser oráculo do Deus Vivo na terra. (A salvação vem dos judeus Jo 4.22).

c. Os judeus não entenderam que devido o fato de possuírem todo esse privilégio seriam eles julgados com maior rigor: “A quem muito foi dado, mais lhe será cobrado” (Lc 12.47-48).

d. O Rev. Hernandes Dias Lopes diz que “os gentios estavam sendo mais coerente do que os judeus moralistas. É que os gentios praticam coisas que sabem ser erradas e aprovam os outros que as praticam (1.32), e os judeus moralistas praticam coisas que sabem ser erradas, mas condenam os outros que agem da mesma forma. Assim, os judeus são culpados de pecado da hipocrisia, pois condena o erro na vida dos outros enquanto eles próprios praticam os mesmos erros”.3

SÍNTESE DO TÓPICO II

Os judeus, embora fosse o povo escolhido de Deus, também necessitam de salvação.

III. A NECESSIDADE DA SALVAÇÃO DA HUMANIDADE (Rm 3.9-20)

1. Universalidade e o jugo do pecado.

a. O pecado é democrático: “Todos pecaram”.

b. John Stott diz que o pecado está acima de nós, pesa sobre nós e é um fardo esmagador.

c. Todos os homens receberam o seu salário: “A morte”. 

d. A expressão grega hupo hamartían, traduzida como “debaixo do pecado”, tem o seguinte sentido: “no poder de”, “debaixo da autoridade de”. Essa mesma construção gramatical ocorre em Mateus 8.9. Nessa passagem encontramos o centurião dizendo: tenho soldados hupo emautón (por debaixo de mim), que em português tem o sentido de “às minhas ordens”.

e. Assim, o homem sem Jesus está debaixo das ordens, sob a autoridade, sob o domínio do pecado e incapacitado a escapar dele. 

2. Valores e comportamentos.

a. Os valores se inverteram e os bons costumes se tornaram antiquado. 

“Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se desses também.” – 2 Timóteo 3.1-5 (NVI)

SÍNTESE DO TÓPICO III

Todos, judeus e gentios, pecaram e necessitam da salvação que só pode ser encontrada em Jesus Cristo.

CONCLUSÃO

1. Todos os homens estão sob o poder do pecado.

2. A doutrina “universalista” ensina que todos os homens, com ou sem Cristo, serão salvos. A carta de Romanos, como em toda a Escritura, prova que o universalismo é falacioso e doutrina de demônios.  

3. O evangelho é universal em seu alcance, mas não é universalista em sua aplicação. Seu propósito é salvar apenas os que creem (Rm 1.16), ou seja, todos os homens sem acepção, mas não todos os homens sem exceção.

4. Nossa missão, portanto, é pregar o evangelho a toda criatura, pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, ou seja, todos precisam de salvação.


Soli Deo Gloria!
Fabio Campos

Aula ministrada na ICTJ dia 10/04/2016

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Notas e citações:

1 LOPES, Hernandes Dias. Romanos, o Evangelho segundo Paulo; p.77
2 Ibid, p. 84.
3Ibid, p. 103.
4 Ibid, p. 145
5 Ibid, p. 44


Referências bibliográficas:

Escola Bíblica dominical. Maravilhosa Graça. 2º trimestre de 2016; CPAD; lição 2..
LOPES, Hernandes Dias. Romanos, o Evangelho segundo Paulo. São Paulo, SP; Hagnos, 2015.
PATE, C. Marvin. Série Comentário Expositivo Romanos . São Paulo, SP; Vida Nova, 2015.