quinta-feira, 26 de março de 2015

RELIGIÃO E LAZER! É PECADO SE DIVERTIR?


Por Fabio Campos

Texto base: "Para quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir?" – Ec 4.8 (NVI)


Não há nada melhor ao homem, pelo desfrute do seu trabalho, do que tirar umas boas férias. Estive em férias no mês de março (2015), e pude mais uma vez comprovar tal coisa, sendo uma necessidade fisiológica. Mas algo me inquietou! Peguei-me numa “sensação de culpa” simplesmente porque estava divertindo-me com minha amada esposa. Logo, então, disse a mim mesmo: “algo está errado”! Orei a Deus e pedi sua orientação para poder discernir de onde era o “intruso sentimento”.

Pois é, imperceptivelmente, mesmo dizendo que não, somos influenciados por aquilo que está ao nosso redor. Se o nosso pensamento não estiver “cativo a Palavra de Deus”, certamente que por todo vento de doutrina seremos levados. Então fui buscar informações a respeito do assunto nas Escrituras e em outras fontes que não fossem contrários ao ensino bíblico.

Deus nos criou com necessidades físicas. Segundo a biologia, todas elas são supridas por intermédio dos órgãos chamados “órgãos do sentido”. Dentre eles há o “tato” (permite distinguir algo pelo toque), “olfato” (permite distinguir as coisas pelo cheiro), “paladar” (permite sentir o sabor dos alimentos), “visão” (permite enxergar o que é belo) e a “audição” (permite ouvir a boa música que acalmará o nosso espírito). Por que, então, Deus nos criou com tais necessidades? Teria Ele “errado” em nos fazer assim para logo depois proibir de usufruir daquilo que Ele “tão habilmente” criou? Indiretamente alguns acham que sim, principalmente os religiosos legalistas.

Mas não estamos perdidos! Deus foi tão bom conosco que Ele colocou o “Livro do Eclesiastes” no cânon das Escrituras. Confesso que este, no tempo de “crise existencial” me ajuda bastante. Sensacional! O livro trata de diversos assuntos. Entre eles estão a “pobreza e a riqueza” (5.8 – 6.12), o “sofrimento e o pecado” (7.1 – 8.1), a “autoridade e a injustiça” (8.2 – 9.10), a “sabedoria e a loucura” (9.11 – 10.20) e a “vida de alegria” (11. 7-10). Sendo ainda mais especifico, o ele abrange temas como “prazer” (2.1-11), “trabalho” (2.18-23), “desfrute da vida” (2.18-23), “riquezas que devem ser desfrutadas” (5. 8-20), “riquezas que não devem devem ser desfrutadas” (6. 1-9), “moderação” [inclusive no ser justo] (7.15-22) e o “modo pelo qual a vida deve ser desfrutada” (11.9 – 12.8).

O pregador diz que é “uma triste maneira de viver” (Ec 8.4 NTLH), o homem que anda sozinho e que sempre está trabalhando, qual não separa tempo para “aproveitar as coisas boas da vida”. Mais triste ainda (e opressor) são os “religiosos” que fundamentam seus “rigores acéticos” com “eisegeses” (ser desonesto com o texto bíblico), levando os mais simples na fé a prisão dos “rudimentos”. Lógico que isso aparenta piedade! Santidade! Entretanto, Paulo, diz que viver deste modo como “não manuseie!”, “não prove!” “não toque!” de fato, aparenta boa coisa, mas que na verdade não passa de “falsa humildade”, pois toda esta “severidade com o corpo” não atingirá o que tão somente um coração regenerado alcançará, a saber, “refrear os impulsos da carne” (Cl 2.20-23).

Estes tipos de regras impostas por líderes através do medo, nada mais é que, uma “pretensa e maligna religiosidade”, onde traz respaldos que separaram “a vida religiosa” do dever “moral e social”. São privações infundadas. O cristão não é “dictomizado” (separado em partes). Ele é integral! Ainda que seja na diversão, com o coração puro, assim fará em “louvor e agradecimento a Deus”.

O Dr. Russell Shedd diz que o “legalismo procura controlar o crente como alguém que ainda vive no mundo (“como se vivêssemos no mundo”). Trata o regenerado como um incrédulo carregando-o de exigências que criam temor (“falhei, assisti durante oito minutos a um programa de televisão”) ou a soberba (“não danço, não fumo, não bebo e não me associo com ninguém que pratica qualquer destes males”). É fácil esquecer que há muitos não-convertidos que não se interessam por nenhuma dessas práticas, mas nem por isso estão mais perto do reino. A raiz do pecado não está nas práticas externas de proibições humanas, mas no amor próprio que brota no lugar da devoção a Deus”. O legalismo foca o “dever”, enquanto que a liberdade no Espírito depende do “querer”. Continuando, Shedd, diz: “Muitos homens religiosos gastam duas vezes mais esforços para chegar ao inferno do que seria necessário para alcançar o céu”.

O sábio pregador do Eclesiastes recomenda que desfrutemos daquilo que Deus criou (já que tudo foi feito com excelência), pois “não há nada melhor para o homem do que comer, beber e alegrar-se” (Ec 8.15). Muitos têm comida e bebida, no entanto poucos conseguem desfrutar disto, pois a recompensa pelo trabalho só poderá ser concedida por Deus (Ec 3.13).

A vida é dádiva de Deus! E por falar nisso, do trabalho do homem, sua única recompensa é comer, beber e alegrar-se junto de sua família em usufruto das obras de suas mãos (Ec. 3.22). Desfrute da “bênção da intimidade” com a sua esposa. Aproveite muito!, pois somente ela poderá satisfazer o seu libido (Ec 9.9; Pr. 5.16-19).

O verdadeiro cristão tem prazer na comunhão com o seu Senhor. Ele é regido pela Palavra de Deus e moderado em suas ações (Fp 4.5). Deus nos deu a “livre-agência”, entretanto, esta liberdade será trazida a julgamento (Ec. 11.9; 12.14). O verdadeiro servo de Deus jamais terá prazer na diversão com “motivações mundanas” (Ec. 2.1,4; Is 22.13). Não! O que precisamos discernir são atividades puras, inocentes, das impuras e maliciosas. Creio não ser necessário dizer a uma pessoa que ir numa boate não agradará a Deus.

Posto isso, não precisa se sentir culpado ao se divertir, como está escrito: Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz” (Ec 9.7 NVI). Se tal coisa não escandalizar o seu irmão, e se a sua liberdade não for pedra de tropeço a ele, desfrute-a para a glória de Deus (1 Co 10.31). Auréola na cabeça não é sinal de coração puro.  

Paulo, pregando aos gentios de Listra, disse que “Deus não ficou sem testemunho, pois mostrou sua BONDADE, dando-lhe chuva do céu e colheitas no tempo certo, CONCEDENDO-LHES sustento com fartura e um CORAÇÃO CHEIO DE ALEGRIA” (At 14.17). Tudo isto Deus fez e faz aos “não- crentes”, imagina, então, aos seus filhos?

A vida de Paulo não foi fácil. Ele foi um homem piedoso que e “irrepreensível” concernente às atividades religiosas. Entretanto, Paulo, assim como nós, era “mortal” e carecia de necessidades. Uma delas era em ter momentos de refrigério dentro de suas atividades ministeriais. Ele ansiou estar com os irmãos de Roma para que, com eles, pudesse se alegrar; desejou RECREAR-SE (divertir, entreter) com eles (Rm 15.32 ARA). A chave linguística do Novo Testamento Grego, da Editora Vida, diz que este verso (Rm 15.32), no original, traz o sentido de “descansar junto com”; “refrescar-se com alguém”; [era como que Paulo tivesse falando] “eu [quero] descansar e refrigerar o meu espírito junto com vocês” (p. 282, RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon; impressão 2007).

Não caia no engano legalista dos “santarrões”, pois Deus nos criou com necessidades, e uma delas, sem dúvidas, é a diversão. Podemos, sim, se divertir de modo santo e digno para a glória de Deus; mas não caia no asceticismo que tem a sua motivação no desempenho para ostentar o orgulho de “estar aprovado” segundo os preceitos humanos.

Tudo tem a hora apropriada. Então, quando chegar a hora de se divertir, divirta-se!, se conseguir, agradeça a Deus, pois nem todos conseguem usufruir deste benefício, como está escrito:

“E, quando Deus concede riquezas e bens a alguém, e o capacita a desfrutá-los, a aceitar a sua sorte e a ser feliz em seu trabalho, isso é um presente de Deus”. – Ec 5. 19 (NVI).

Certamente, se divertir, é uns dos presentes de Deus!


Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos
fabio.solafide@gmail.com
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Referências bibliográficas:

SHEDD, Russell. Lei, Graça e Santificação. São Paulo, SP; Vida Nova; 2005.
F. HARISSON, Everett. Comentário Bíblico Moody. Volume I e II. Batista Regular, 2010. São Paulo, SP
CARSON, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. Vida Nova, 2012. São Paulo, SP