domingo, 4 de janeiro de 2015

DE TOLAS DEVOÇÕES E SANTOS DE CARA AMARRADA, LIVRAI-NOS, SENHOR!


Por Fabio Campos

Texto base:Então, por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, impondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar?” – Atos 15.10 (NVI)


Certa vez, disse Teresa de Ávila (1515 – 1582): “... de tolas devoções e santos de cara amarrada, livrai-nos, Senhor”. Pois é, com toda a rigidez característica das freiras da época, Teresa de Ávila, me parece que em parte, contrariou alguma coisa desta tradição. Talvez seja por isso que seus escritos sejam lidos por muitos protestantes; incluo nesta lista o grande apologista, falecido no século passado, C. S. Lewis.

Emprestando o dizer de Ávila, com base em Atos 15.10, quero fazer uma breve reflexão sobre o ascetismo exagerado pregado por alguns que pensam ser puritanos de 2015 (com todo o respeito devido a estes grandes homens de Deus). Houve uma dissensão na igreja de Antioquia entre os discípulos. Alguns fariseus convertido ao cristianismo colocaram em xeque a salvação dos gentios, dizendo que se eles não se circuncidassem e se não obedecessem à lei mosaica, de forma alguma, seriam salvos.

A igreja então convocou um concílio para tratar da questão. O debate foi acalorado até que se levantou Pedro. Na autoridade do Espírito Santo, ele disse: Então, por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, impondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar?” (At 15.10). A respeito deste verso, Matthew Henry, diz: “Eles [fariseus] ofereceram um mal muito grande aos discípulos: Cristo veio proclamar liberdade aos cativos, e eles estão tentando escravizar aqueles a quem Ele libertou” [1].

O fanatismo religioso mata! Por vezes encontro mais graça e misericórdia na casa de “gente ignorante no que concerne a fé cristã” do que na casa de cristãos ortodoxos praticantes. Pessoas que apontam somente para a lei sem acolher o pecador.

Sendo sincero, desconfio de cristão austero qual não consegue expressar um gesto de afeto. Ele até é correto na doutrina; mas repare que sua testa está sempre franzida! Ele é duro no sermão; no ensino; dentro de casa. Sempre está de cara amarrada e não consegue esboçar um sorriso de seus próprios “escorregões”. Veja que ele não consegue ser pai e nem marido. O cara é profeta o tempo todo. Nas redes sociais ele é Calvino, Lutero e Knox - os três dentro de um só.

A esposa não tem um marido e os filhos não tem um pai. Até dentro de casa o “irmão” é um teólogo erudito, irrepreensível na lei. Geralmente não posta uma foto se quer nas redes sociais junto da sua esposa. Ganhou o mundo e perdeu a sua casa. Sua família não tem prazer na sua companhia. Ai de quem cometer um só deslize perto dele. Coitado! Ele coloca tantas regras e emite tantos catecismos que, tanto o rebanho, como os seus, respeitam tão somente por medo, mas não se submetem em amor.

Jesus em seu ministério terreno teve os seus momentos de ira. Mas repare que grande parte deles foi com este tipo de gente. O Nazareno foi “manso e humilde de coração”. Ele repartiu a refeição com os discípulos; chorou pela morte do amigo; teve compaixão de um monte de gente que só estava interessado no “pão que perece”. Creio que Jesus nunca olhou com raiva para alguém que por causa dos seus pecados, estava, agora, precisando do seu favor.

Muitos com suas pregações austeras concluem (corretamente) que a exposição do Evangelho deve confrontar o pecador e não acariciá-lo. Pois bem! Qual doutrina e prescrição divina aos homens confrontam mais a nossa natureza pecaminosa? 1) Arrepender-se dos pecados ou 2) perdoar os inimigos? O crivo e a veracidade para saber se houve uma regeneração de fato aos cristãos se encontra no segundo ponto! Tem gente que com os seus manuseios teológicos não consegue amar o pecador dizendo que Deus odeia tanto o pecado como o pecador. “Amai os vossos inimigos, pois sede perfeito como perfeito é o vosso Pai”. Colocar fardos pesados nas costas dos outros se recusando a carregar, deste, o mínimo que seja - sem dúvidas, é uma grande hipocrisia.

É verdade que a ira de Deus deve ser exposta, mas a Escritura diz o que constrange o pecador é o amor de Cristo (2 Co 5.14); somente a bondade de Deus que leva o homem ao arrependimento (Rm 2.4). A ira traz o remorso, por isso que ela se manifestará naquele grande dia. O remorso trará junto de si o “ranger de dentes”. Precisamos alertar o pecador acerca daquele dia, mas nunca podemos deixar de apontar a graça e a misericórdia de Deus demonstrado através do seu grande amor.

A lei sem a graça e a graça sem lei, independentemente da ordem, é outro evangelho, pois não tem a cruz. Se as pessoas não se converterem ao ouvir sobre o amor de Deus, certamente, devido a sua dura cerviz, não será de outra forma que elas se converterão verdadeiramente. Poderão ser “convencidas”, mas nunca serão “convertidas”, pois quem teme, não conhece a Deus, pois Deus é amor. Por isso que disse o Senhor: “Deus amou o mundo de TAL MANEIRA...”.

Ser de Jesus é ser a pessoa mais feliz do mundo. É ter paz e alegria no Espírito. É ser agradável ainda que precise, em algumas situações, ser um pouco mais firme. É escutar, e por vezes, somente escutar. Ser cristão não é fazer e nem deixar de fazer – não é o que se deve comer ou não – nem em se atentar o dia que deve ser guardado. Também não é deixar de “tocar”, “provar” ou “manusear” algo segundo os preceitos de homens. Tudo isso tem uma aparecia de “santidade”, mas não tem poder nenhum contra a cobiça da carne (Cl 2.23). O que importa é ser uma nova criação (Gl 6.15).

Ser cristão é ser uma nova criatura em Cristo Jesus (2 Co 5.17). É ter a lei de Deus no seu coração (Jr 31. 31-34); é Ama-lo com todo o seu ser, pois fomos salvos e acolhidos por Deus do que jeito que estávamos, como está escrito: “Deus nos acolheu quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8).

Então, amado irmão, relaxa. Sorria! Tenha mais misericórdia com os erros dos outros. Leve seu filho para se divertir. Se ele gosta de futebol, jogar bola é um excelente exercício. Leve-o ao estádio de futebol para assistir o jogo do seu time de coração. Pára de ser este santarrão mal resolvido que só sabe apontar os erros dos outros. Tira esta “cara amarrada”; Deus o ama e deve ser glorificado também através do entretenimento (1 Co 10.31). Ganhe seus filhos. Sorria junto da sua esposa. Coloque uma música romântica (pelo amor de Deus, não é música evangélica) e dance com ela na sala da sua casa.

Lembre-se, nesta situação, quem mais precisa de misericórdia, é você!, do que aquele que você acha que já foi “predestinado” ao inferno, como está escrito:

“Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma do que para você". – Mateus 11.24 (NVI)

Sinceramente? Desconfio de toda santidade ostentada.


Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,


Soli Deo Gloria!

Fabio Campos

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Notas: 

[1] Bíblia de estudo, Matthew Henry.  Rio de Janeiro, RJ; Mundo Cristão, 2014, p. 1758.