domingo, 21 de dezembro de 2014

CONHECER SOBRE DEUS OU CONHECER A DEUS?


Por Fabio Campos

Texto base: Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”. – Jó 42.5 (NVI)


Não tenho dúvidas, principalmente pela postura, seja na igreja – seja nas redes sociais -, que muitos conhecem muito “sobre” Deus, mas conhecem pouco a Deus. Deus na vida destes não é uma pessoa, mas sim uma teologia, qual conseguem manusear, limitar e “explicar” através de cláusulas como se faz nas demais ciências.
Muito diferente de tal postura, pelas Escrituras, vejo o amado Apóstolo Pedro. Um homem iletrado e inculto, que talvez, pouco conhecia Deus pela teologia. Todavia aos homens, inclusive para os seus inimigos, era notório que ele “havia estado com Jesus” (At 4.13). O Reverendo Hernandes Dias Lopes traz uma nota em seu livro “Paixão e Piedade” muito interessante acerca do assunto:

“Há muitos pastores pregando sermões bíblicos, doutrinas ortodoxas, mas seus sermões estão secos e sem vida. E. M. Bounds diz que a pregação que mata pode ser, e geralmente é, dogmática e inviolavelmente ortodoxa. A ortodoxia é boa. Ela é a melhor. Mas nada é tão morto como a ortodoxia morta” [1].

O mesmo Pedro na sua segunda epístola nos exorta a buscar junto da fé a diligencia e a virtude; na sequencia ele diz para associarmos tudo isso ao “conhecimento” (2 Pe 1. 5-6). A conotação empregada por Pedro neste ‘conhecimento’ “não é intelectual, mas experimental, qual transforma aquele que a exerce” (Nota de rodapé Bíblia de estudo Shedd).

Irmão, pelos frutos seremos conhecidos. Há uma grande diferença naqueles que conhecem a Deus para aqueles que conhecem sobre Deus. A teologia é importantíssima, pois é a ciência que pensa sobre Deus; quer queira – quer não – ao abrir a Bíblia todo cristão faz teologia. Contudo, veja que grandes universidades lecionam o seu curso teológico através de teólogos ateus e liberais. E digo mais - no âmbito acadêmico e não espiritual – são excelentes professores. Todavia só informam, mas não alimentam. Falam de Deus, mas não conhecem a Deus. Fazem teologia, mas não geram espiritualidade. Este é a diferença de “conhecer sobre Deus” do “conhecer a Deus”.

É preciso conhecer a Deus para torná-lo conhecido. A declaração de Jó: Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”; traz muita luz a respeito. Como pode um homem, louvado por Deus, no fim, confessar que conhecia a Deus somente de ouvir falar? Pois é, amados; não podemos dar crédito a qualquer um só porque a sua teologia parece ser boa. Não! Lembre-se que os três amigos de Jó tinham uma teologia ortodoxa.

Leia suas afirmações e se atente naquilo que eles falaram a Jó. Não há heresias! Podemos tranquilamente basear nossos sermões e estudos naquilo que eles afirmaram. Olha que interessante! Tudo certinho e, dentro dos atributos de Deus, nada fora do seu devido contexto. Mas Deus não os conhecia. Depois da confissão de Jó, na narrativa bíblica, o Senhor toma a Palavra e direciona aos amigos de Jó, dizendo: “A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto (Jó 42.7).

Eles falaram certo de algo que não conheciam. Assim, também, muitos estão aí emitindo um parecer sobre algo que não conhecem. Julgam como julga o juiz que busca respaldo legalista na constituição. Mas quem pode conhecer a Deus e entender a sua misericórdia? Por isto que a cruz é uma loucura para alguns e escândalo para outros. O temor de Deus invade aqueles que realmente quer agradá-lo. Quantos pregadores e teólogos eloquentes ouvirão naquele dia: “nunca vos conheci”. É isso mesmo! Conhecer sobre, é uma coisa! Conhece a Deus, é totalmente outra!

Quem mais, junto dos fariseus, detinha o conhecimento como os Escribas? Creio que na época ninguém. Mas a Escritura acerca de Jesus, diz: “porque ele [Jesus] as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt 7.29). Um povo que honra com as palavras e com a liturgia certa, entretanto, com o coração distante de Deus (Mc 7.6).

Creio que um dos motivos do sofrimento de Jó foi para ele entender que, com tudo, ele era amado pelo Senhor; e que, aqueles que pensava saber algo sobre Deus, de fato, não O conhecia. Uma nota feita por Alister McGrath na obra que ele escreveu sobre C. S. Lewis, diz que “ler A anatomia de uma dor”, de C. S. Lewis, “é perceber como a fé racional pode esfacelar-se quando enfrenta o sofrimento como uma realidade pessoal, mas do que como uma ligeira perturbação teórica” [2]

Enfim, depois da repreensão do Senhor aos amigos de Jó a Escritura diz que o “Senhor aceitou a face de Jó” (Jó 42.9).

“O conhecimento” de Deus quando não seguido do “o conhecer a Deus” só traz orgulho. É o meio usado daqueles que têm a necessidade de ser aceito dos demais. Eles temem a solidão! Não há como negar e a Escritura confirma isso que, muitos pregam a Cristo por ciúmes e por inveja; todos estes são briguentos (Fp 1.15-17). Porém, ainda que Cristo esteja sendo pregado, estes, poderão ter a honra dos homens, mas não terão o louvor de Deus (2 Co 10.18).

O “conhecimento sobre Deus”, ratifico, é uma coisa; “conhecer a Deus”, é outra. Fazer teologia é uma coisa, isso se aprende na sala de aula; ser moldado à imagem do Filho Jesus, isso é espiritualidade; espiritualidade se constrói no dia a dia – andando e caminhando com Deus; seja na tristeza – seja na alegria. Paulo diz que “o conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria. Mas quem ama a Deus, este é conhecido por Deus” (1 Co 8.1-3).

Então só nos restar obedecer:

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”. – Miquéias 6. 8 (NVI)


Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,


Soli Deo Gloria!

Fabio Campos

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Notas: 

[1] LOPES, Hernandes Dias. Paixão e Piedade. São Paulo, SP; Candeia, 2002, p. 25.

[2] MCGRATH, Alister. A vida de C. S. Lewis. São Paulo, SP; Mundo Cristão, 2013, p. 356.