domingo, 31 de agosto de 2014

DIVÓRCIO E NOVO CASAMENTO, O QUE A BÍBLIA DIZ A RESPEITO?


Por Fabio Campos


Grande parte da igreja tem dado pouca importância a um assunto tão importante, a saber, o divórcio seguido do novo casamento. Esta é uma questão recorrente que demanda a opinião dos líderes e dos pastores no seio da igreja.

Ao ser perguntado a respeito, julguei não ser bom dar uma resposta simplista, e por isso me empreendi no estudo deste artigo. Uma obra que me ajudou a elaborar este estudo foi “Casamento, Divórcio e Novo Casamento”, do Rev. Hernandes Dias Lopes. No decorrer, os irmãos vão perceber (pelas referências bibliográficas) que tirei muita coisa deste livro.

Com temor me propus a estudar e escrever o artigo, a fim de ajudar aqueles que, em certo ponto, estão ou passaram, por tal situação. Como é da obrigação de todo cristão, tudo deve ser tratado a luz da Bíblia, buscando conhecer a vontade de Deus, a qual é boa, perfeita e agradável (Rm 12.2). Toda e qualquer opinião que contradita as Escrituras, para o bem de nossa alma, deve ser rejeitada com veemência, como está escrito: “... seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso” (Rm 3.4).

A Palavra de Deus é mais importante do que a opinião dos homens. As ciências humanas, as escolas psicológicas, a doutrina dos ativistas sociais, a opinião dos terapeutas e conselheiros matrimoniais devem se sujeitar à autoridade absoluta da verdade divina. O tempo passa, os costumes mudam, os valores morais se alteram, mas a Palavra de Deus permanece para sempre [1]. O sábio tem a mente de Cristo. Então, o que Deus pensa acerca do divórcio e do novo casamento?


O CASAMENTO COMO INSTITUIÇÃO DIVINA

Antes de tudo precisamos salientar que o “casamento” é uma instituição divina e não humana como afirma o marxismo. Com toda infelicidade o marxismo coloca a família como mera criação da burguesia e a classifica como algo prejudicial e destrutivo [2]. Walter Kaise Jr. diz que o casamento é um dom de Deus aos homens e às mulheres. Deus não somente criou o casamento, mas também o abençoou [3].

O Reverendo Hernandes Dias Lopes diz que “os filhos de um homem são parte dele mesmo, mas sua esposa é ele mesmo” [4]. Na ordem de prioridades, o cônjuge vem primeiro do que os próprios filhos, pois os filhos não ficarão para sempre na casa de seus pais. Somente a morte separará o casal temente a Palavra de Deus.

O livro de Provérbios ensina que o casamento é um compromisso bilateral entre um homem e uma mulher e condena o adultério como quebra dessa aliança conjugal (Pv 2.16,17) [5]. O casamento foi a única instituição criada por Deus antes da queda. Kaiser comenta que a perspectiva teológica de Gênesis 2 é que Deus criou um jardim para proporcionar prazer ao homem, animais para servi-lo, e a mulher para fazer-lhe companhia [6]. O primeiro e mais importante propósito do matrimonio é glorificar a Deus (1 Co 10.31).


O DIVÓRCIO

Stephen Arterburn, no livro “A batalha de todo homem” diz que se os cristãos se ocupassem totalmente dos propósitos de Deus, isso se refletiria primeiro em nossos casamentos [7]. Muitos divórcios acontecem porque os casais não conhecem os ensinamentos de Deus e nem buscam conhecê-los.

O casamento foi instituído por Deus, o divórcio pelos homens. O casamento é ordenado por Deus, o divórcio não. O casamento agrada a Deus, o divórcio não, ao contrário, Deus odeia o divórcio. Deus permite o divórcio (dentro dos limites estabelecidos na sua palavra os quais vamos tratar), mas jamais ordena. O divórcio jamais foi o ideal de Deus para a família [8].

Infelizmente a sociedade preocupa-se mais com a cerimônia do casamento do que manter o casamento. O divórcio produz muito sofrimento, pois separa o que Deus uniu. Nossa opinião a respeito não deve ser baseada no conceito moderno daqueles que estimulam o divórcio, pois por mais que em algumas situações o divórcio é necessário (trataremos isso a seguir), ele não é uma coisa boa em si mesmo. D. A. Carson diz que o divórcio jamais deve ser encarado como uma ordenança divina ou uma opção moral neutra. Ele é uma evidencia clara de pecado, o pecado da dureza de coração [9]. Portanto, o divórcio é consequência do pecado e não da expressão da vontade de Deus, pois Ele odeia o divórcio (Ml 2. 10-16).

Antes de passarmos para o próximo tópico, “quando o divórcio é permitido”, é importante frisar que o divórcio é uma coisa horrenda aos olhos de Deus. Não há divórcio sem dor, sem trauma, sem feridas, sem vitimas. É impossível rasgar o que marido e mulher se tornaram (uma só carne) sem causar sofrimento. Embora a sociedade pós-moderna esteja fazendo apologia do divórcio, os princípios de Deus não mudaram, nem jamais mudarão [10].


QUANDO O DIVÓRCIO É PERMITIDO

Existem apenas duas causas que legitimam o divórcio: “A infidelidade conjugal” e o “abandono do cônjuge”. Quando Jesus foi interrogado pelos fariseus a respeito do assunto, o debate entre a escola dos rabinos Hillel e Shammai era a lente pelo qual decidia esta questão. Havia uma grande tensão teológica entre estas duas linhas de interpretação.

Hillel defendia uma posição liberal e dizia que o marido podia divorciar-se de sua esposa por praticamente qualquer motivo, enquanto que Shammai defendia uma posição restrita e radical, dizendo que Moisés referia-se especificamente ao pecado sexual (Dt 24.1) [11]. Jesus, todavia, não somente usou a linha de Shammai, mas trouxe luz sobre ela, dizendo, neste aspecto, que a imoralidade era a única cláusula de exceção por Ele estabelecida (Mt 19. 3-12).

Ele ainda foi mais afundo quando disse que no princípio não foi assim, mas com a queda, devido ao pecado o qual endureceu o coração do homem, esta condição foi “permitida (e não ordenada) para que a vítima tivesse a escolha de se apartar do adúltero (Mt 19.8,9). Hendriksen diz que a infidelidade marital é um ataque à própria essência do vínculo matrimonial. Neste caso, o cônjuge que trai está ‘separando’ o que Deus uniu [12]. O próprio Deus divorciou-se de Israel devido a sua infidelidade (Jr 3. 6-8).

Outra situação que legitima o divórcio é o abandono do cônjuge (1 Co 7.15). Paulo trata desta questão com a igreja de corinto. Se o cônjuge abandonar o seu parceiro (a), continuando na obstinação do seu pecado, o abandonado poderá demandar o divórcio.

Outra coisa que por inferência podemos, com muito cuidado, julgar, é a ameaça da integridade física de uma das partes. Eu tive uma triste experiência na família onde a “não separação” terminou em uma tragédia. É necessário ter prudência! Agressão física não é caso para pastor tratar, mas sim a polícia. O conceituado interprete das Escrituras, Adam Clarke, entende que Moisés percebeu que se o divórcio não fosse permitido em alguns casos, as mulheres poderiam ser expostas a grandes dificuldades e sofrimentos pela crueldade de seus maridos [13].


QUANDO O NOVO CASAMENTO É PERMITIDO

Por mais arrepios que se tire dos “ultraconservadores” legalistas, a Bíblia legitima o novo casamento à vítima em três situações: 1) adultério (Mt 19.9); 2) o abandono do cônjuge obstinado (1 Co 7.15) e 3) a viuvez (7. 2-3). Precisamos, contudo, reafirmar que a Bíblia é enfática em proibir o novo casamento por motivo banal, ou seja, quando o motivo do divórcio é outro a não ser por causa destes três contextos [14].

Aos que estão pensando em se separar, planejando um novo casamento, lembre-se que se o divórcio não ocorrer pelas formas legítimas (conforme tratamos), o novo casamento também não será legítimo. Fora disso o casamento não é aceitável aos olhos de Deus e o novo casamento constitui-se em adultério. Robert Plekker corretamente afirma que aos olhos de Deus, o marido divorciado ainda está casado com a primeira esposa [15]. Podemos enganar o nosso pastor, os nossos familiares e amigos, mas é impossível enganar a Deus. Ele sabe das intenções do coração, e o que o homem semear, isso também colherá (Gl 6.7).

O divórcio não é uma solução sábia para a crise no casamento. Pelo contrário, o divórcio tem demonstrado ser mais um problema do que uma solução, capaz de gerar mais sofrimento e frustração. A psicóloga Diane Medved afirma que alguns casais chegaram à conclusão de que o divórcio é mais perigoso e destrutivo do que tentar permanecer juntos [16].

Portanto, você só terá um novo casamento legítimo aos olhos de Deus, se também o motivo do divórcio for legítimo aos olhos de Deus. Somente onde acontece o divórcio legítimo, abre-se a porta para a entrada das novas núpcias.


O PERDÃO

Eu sou casado e corroboro com o dizer: “casamento é somente para os fortes”. Como somos pecadores, e a dureza do nosso coração nos impede muitas vezes de perdoar o nosso cônjuge. Quando você não “encontrar” motivo para perdoar o seu cônjuge, olhe para ele como um “irmão em Cristo”; se ainda julgar não haver motivo, lembre-se que Jesus disse que deveríamos perdoar os nossos inimigos. Dura é essa palavra para nós que somos maus. Por isso preciso cuidar do meu casamento mesmo estando de pé para que eu não venha a cair (1 Co 10.12).

Eu já tive contato com muitos casais que estavam por a triz de assinar a carta de divórcio, mas que ao deixa-se serem ministrados pelo Espírito, o Senhor os honrou com uma alegria dobrada. Lembre-se que Deus deu o divórcio a Israel (Jr 3. 6-8), contudo, Ele não desistiu da sua noiva. Foi busca-la no prostíbulo (Os 3.2), pagou por ela com o seu próprio sangue, e através deste pagamento, o sangue do Seu Filho Jesus, a reconciliou consigo mesmo (2 Co 5.19).

Mesmo a “vítima” precisa trazer a memória o seu percentual de culpa para a atual situação. Até o ofendido tem a sua parcela de culpa, pois demandamos o perdão divino (Mt 6.12). Quem não precisa de misericórdia? Este é o pressuposto que deve ser analisado em face às sugestões do divórcio.

Hernandes Dias Lopes diz que “quem não perdoa como Deus perdoa se fecha para a vida de Deus” [17]. E ainda: “É impossível fazer a oração do Senhor sem espírito perdoador. Se o nosso coração é um poço de mágoa e vingança, não podemos orar como o Senhor nos ensinou, pois estaremos pedindo juízo sobre a nossa cabeça em vez de misericórdia, condenação em vez de perdão. O perdão é o remédio para as tensões conjugais, não o divórcio” [18]. O caminho da reconciliação é melhor do que o atalho do repúdio. A reconciliação é mais segura e conduz a um destino mais feliz [19].

Deus é um Deus de milagres que se alegra na misericórdia (Mq 7.18). Não há impossíveis para Ele. Não apenas tapa os fossos escuros do nosso passado vergonhoso, mas Ele constrói pontes de um novo e vivo relacionamento. Perdão implica em restauração [20]. Quando há o genuíno arrependimento, creio que vale apena deixar o Espírito Santo ministrar o perdão de Deus que faz novas todas as coisas.


AOS DIVORCIADOS

O apóstolo Paulo disse que os divorciados pelos motivos legítimos poderão casar-se novamente, entretanto, seria bom que ficassem solteiros. Contudo, porém, não se dominam, então que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado (1 Co 7. 8-9), no entanto que seja no Senhor ( 1 Co 7.39) para não incorrer no “julgo desigual”.

Aos que se divorciaram fora das cláusulas permitidas por Deus, têm duas opções: 1) não se case, ficando assim solteiro ou 2) se reconcilie com o seu cônjuge (1 Co 7.10-11). A nota do comentário bíblico Moody traz o seguinte parecer: “No caso de uma separação desaprovada, Paulo destaca duas possibilidades. A esposa que não se case, tempo presente, enfatizando o estado permanente. Ou então, que se reconcilie com seu marido, tempo aoristo, enfatizando um acontecimento de uma vez por todas, em separações subsequentes” [21].

Fica o alerta de Nosso Senhor Jesus Cristo: Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério" (Mt 19.9 NVI).


CONCLUSÃO (palavra pastoral)

Não poderia terminar este assunto sem ao menos procurar um conselho pastoral. Por isso fui buscar uma orientação do meu pastor, aproveitando assim de sua experiência ministerial da qual, pelo tempo, ainda não possuo. A igreja precisa ser o hospital para a restauração das pessoas que passaram por este processo doloroso do divórcio.

Não podemos ser simplistas a respeito do assunto. Não há graça sem a misericórdia; os legalistas, pautados na Lei, se achegam com as pedras nas mãos; lembrando que o Diabo “usa a Lei” para acusar (e com “verdade” e razão) os filhos de Deus. Todavia, a alguém que usou a mesma Lei (que é santa, boa e perfeita) para condenar o pecado na carne e justificar pela graça os que creem; a saber, Cristo Jesus, o Senhor.

Ele foi o único que pôde bater de frente com a Lei sem ser condenado. Assim como os religiosos que detinham as pedras nas mãos para condenar a mulher pega no ato do adultério, tiveram que dar um passo para trás sob a pergunta do Senhor (Jo 8. 1-11); assim também a Lei, a qual fora cumprida perfeitamente na Pessoa do Filho, teve que dar um passo para trás mediante a apresentação do sangue puro do Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Posto isso, as vítimas desta “desgraça”, o divórcio, precisam ser acolhidas com misericórdia no seio da igreja. Ainda que repudiemos o divórcio, devemos acolher o divorciado. Quem passou por este processo antes da conversão, estes, tiveram o seu passado apagado pela misericórdia de Deus, pois o Senhor não leva em conta o tempo da ignorância (At 17.30; 1 Tm 1.13). Tudo de antes se fez novo (2 Co 5.17). Sendo assim, se estiverem casados, permaneçam casados; se forem divorciados, em Cristo, poderão se casar novamente, constituindo agora uma família sob os preceitos do Senhor (1 Co 7.1-2).

Para os cristãos que se divorciaram conhecendo a verdade, a ordem bíblica, se o divórcio não foi pelas cláusulas legítimas (conforme tratado), permaneçam solteiros (1 Co 7.11). Se você divorciou sem a autorização bíblica e casou-se novamente, não peque duas vezes; permaneça casado (1 Co 7.10). Todavia, todos aqueles que procederam neste erro, deliberadamente, banalizando o matrimonio, Deus os julgará (Hb 13.4). O assunto é mais sério do que imaginamos; separar o que Deus uniu é rebelar-se contra o próprio Senhor. Se você estiver passando por esta situação, busque ajuda de um casal capaz, maduro, que poderá auxilia-lo nestas questões.

Todos nós precisamos escutar pessoas que têm algo a nos acrescentar. Escrevi este artigo vigiando para que eu não caia. Assim, minha opinião foi baseada na razão e não na emoção; todos nós temos o conhecimento de coisas que, em vez ou outra, precisam ser lembradas por outrem através da razão em detrimento da nossa emoção.

Que Deus nos ajude, fortalecendo os casais na alegria do Senhor, preservando nos corações dos cônjuges o respeito mútuo. Foi como disse o Rev. Hernandes Dias Lopes: "Casamento é como uma conta bancária, se você sacar mais do que deposita, você vai a falência" [22].

Pense nisto!

“Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará”. – Hebreus 13.4 (AFC).

Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos
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Notas: 

[1] DIAS LOPES, Hernandes. Casamento, divórcio e novo casamento. São Paulo, SP; Hagnos, 2005, p. 10.
[2] Faculdade Teológica Betesda. Curso de teologia. Modulo V, p. 143.
[3] Hernandes Dias Lopes. Op. Cit. 2005: p. 24.
[4] Ibid, p.30.
[5] Ibid, p. 37.
[6] Ibid, p. 38.
[7] ARTERBURN, Stephen & STOEKER, Fred. A batalha de todo homem. São Paulo, SP; Mundo Cristão, 2004, p. 207.
[8] Hernandes Dias Lopes. Op. Cit. 2005: p. 100.
[9] Ibid, p. 103.
[10] Ibid, p. 35.
[11] Ibid, p. 106.
[12] Ibid, p. 108.
[13] Ibid, p. 103.
[14] Ibid, p. 140.
[15] Ibid, p. 142.
[16] Ibid, p. 16.
[17] Ibid, p. 122.
[18] Ibid, p. 123.
[19] Ibid, p. 127.
[20] Ibid, p. 129.
[21] F. HARISSON, Everett. Comentário Bíblico Moody. Volume II. Batista Regular, 2010. São Paulo, SP, p. 444.
[22] Hernandes Dias Lopes. Op. Cit. 2005: p. 10. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

QUAL A URGÊNCIA DA SUA MENSAGEM?


Por Fabio Campos

Texto base: Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. – 1 Pedro 2.9 (NVI)


Uma das grandes conquistas da Reforma Protestante foi o retorno ao sacerdócio de “Todos os crentes”. Antes o sacerdócio era local, centralizado na pessoa do papa. Somente ele detinha a interpretação das Escrituras e podia anunciar, com autoridade outorgada, as “grandezas do Evangelho de Cristo”. Com a reforma, a igreja (não a católica romano que não se deixou reformar), se voltou ao princípio das Escrituras, ensinado por Pedro: o sacerdócio universal, ou seja, qualquer crente em Jesus, regenerado, pode, então, proclamar as boas-novas, tendo acesso direto as Escrituras, interpretando-as pela iluminação do Espírito Santo o seu significado, aplicando assim, ela [Bíblia] a sua própria vida.

Deus sempre conduziu o seu povo através da sua Palavra. Homens deram a vida para que o “conselho de Deus fosse” anunciado. Nossa responsabilidade é grande diante desta vocação: “... povo exclusivo de Deus, para ANUNCIAR AS GRANDEZAS daquele que os chamou das trevas para sua maravilhosa luz”. Tudo se torna periférico diante desta incumbência. Nossa alma grita ainda que sem voz: “... ai de mim se não anunciar o evangelho” (1 Co 9.16).

Deus é mais forte do que nós. Sua mensagem é fogo consumidor que mexe com toda nossa estrutura física. Todo profeta autêntico não conseguirá resistir a Deus e prevalecer, pois o Espírito Santo intranquiliza o espírito do homem. Quando menos se espera, eis que vem a mensagem do Senhor: “Mas, quando penso: ‘Vou esquecer o Senhor e não falarei mais em seu nome’, então a tua mensagem fica presa dentro de mim e queima como fogo no meu coração. Estou cansado de guardá-la e não posso mais aguentar” (Jr 9.9 NTLH).

Quando Deus fala, o profeta quebra o silêncio. Repare as pessoas mais tímidas e introvertidas. As que não são dadas ao público. Muitas temem diante de um auditório; mas quando lhe vem a Palavra de Deus, na autoridade do Espírito do Santo, toda boca se cala e todo ouvido se abre: “Quando o leão ruge, quem não fica com medo? Quando o Senhor Deus fala, quem não anuncia a sua mensagem” (Am 3.8 NTLH).

Nós temos uma mensagem! Não importa onde você mora; sua condição social; o seu salário - você tem uma mensagem. Entenda! A mensagem do evangelho não é entregue somente à homens letrados e intelectuais. Ainda que se tenham tais virtudes, a mensagem não é entregue por persuasão humana, mas sim pelo poder de Deus. Este poder nos impulsiona e nos faz temer diante da urgência. Pedro não era culto e letrado, mas ele conhecia a Jesus: “... pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). O mais importante ele tinha! Conhecia Cristo face a face, e mesmo diante dos doutores da letra, sua sabedoria, excedia, ao ponto da multidão dizer: “Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus” (At 4.13).

Todo arauto de Deus sente na sua alma uma necessidade, e principalmente, uma urgência que o esmaga, ou seja, anunciar todo o conselho de Deus. Gastamos muito tempo com coisas que não são urgentes. Muitos estão a tentar “converter” os irmãos já crentes a aceitarem sua posição teológica - de continualista para cessacionista; arminiano para calvinista; pentecostal para tradicional. Não vejo problema em arrazoar o assunto de uma forma equilibrada e saudável. A questão é que isso é secundário. Enquanto estamos nos empreendendo em questões secundários (pessoas que só falam disso), familiares e amigos estão morrendo sem conhecer “o conselho de Deus”. Lamentável! Brigam como um leão no facebook, mas não têm um pingo de ousadia para proclamar o Evangelho de modo simples e objetivo ao perdido. São pescadores de aquário; medíocres porque não se lançam ao mar, pois sabem que lá o desafio é grande.

Esqueceram-se da mensagem da cruz; e este sem equilíbrio e discernimento, do que é ou não urgente, se entregaram totalmente a vaidade do saber. Não proclamam o Evangelho; apenas falam dele e do modo como o interpreta. E o povo que está com fome de pão, recebe, então, migalhas de pessoas que amam mais a sua causa do que a Causa de Deus; a saber, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”. Usando as palavras de Leonard Ravenhill: “Se tivéssemos mais noites sem dormir, em oração, haveria muito menos almas que teriam que passar noites sem dormir eternamente no inferno”. [1]

A palavra não é nossa, mas de Deus, pois assim diz a Escritura: Pois recebi do Senhor o que também lhes entreguei” (1 Co 11.23). O grande pregador e avivalista, Leonard Ravenhill, certa vez disse: “Eu fico profundamente perturbado quando moços me escrevem, dizendo: ‘Eu sou um profeta do Senhor’. Profetas não são autoproclamados. Eles não se gabam. Eles não buscam um lugar em público onde possam fazer brilhar suas auréolas. Nenhum homem toma essa tremenda honra para si mesmo. E a oposição jamais intimida o verdadeiro profeta. Ele chora diante de Deus e, todavia, ele não precisa de um ombro para chorar. Todos os profetas têm uma mesma segurança: ‘Veio a mim a Palavra do Senhor’”. [2]

O Senhor é conosco! Ele é consolo para todo aquele que se entrega verdadeiramente a Ele, lhe dando não somente a sua palavra, mas a sua própria presença.

Deus nos deu uma mensagem, amados. Ele quer nos usar para o louvor da sua glória. Busque o seu poder. Ele não está interessando (ainda que seja importante) na sua articulação teológica, no seu conhecimento e nem na sua erudição, pois assim mesmo Ele diz: "Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor” (Jr 9.23-24 NVI).

Não se deixe enganar, o diabo sabe que nada pode te separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus. Todavia, sua tentativa é neutralizar o ministério que Deus lhe deu. Ele sabe que não poderá converter você ao ateísmo, mas ele bem sabe que pode distorcer, na sua mente, os atributos de Deus, te convencendo pela mentira que Deus é um tirano, legalista, e que está interessado somente no seu desempenho, ou seja, e que Ele se agrada somente das suas boas-obras para justificação. Em busca do perdão de Deus, ao invés de colocarmos nossa confiança em Cristo, apoiamos-nos em nossa própria força; o esgotamento físico e espiritual só tende a aumentar. Ficamos paralisados, e como disse Leonard Ravenhill: “O fato doloroso é que o sal perdeu o seu sabor. Recentemente eu aprendi que o sal pode perder seu sabor, todavia ele não perde a sua potencia. Quando ele deixa de curar, então ele começa a corromper. Portanto, a igreja morna é um obstáculo maior do que a igreja fria”. [3]

Peça ao Senhor que te renove no Espírito Santo; clame pelas almas. Seja uma bênção no “ministério da reconciliação”. Este é o principal anseio de um homem e de uma mulher de Deus (Rm 10.1). Por estes dias pedi a Deus o seguinte: “Se o Senhor não me der da tua graça e da tua unção, peço, então, que eu não seja mais convidado a pregar em nenhum lugar, pois o que eu entregaria seria apenas conhecimento, fruto de uma “habilidade adquirida”. Certamente, isso seria nocivo a igreja do Senhor Jesus.

Derrame o seu coração a Deus; não importa o que você fez até agora e o quanto você já falhou; busque ao Senhor de “todo o seu coração”. Como disse Leonard Ravenhill: “Oração, em sua forma mais sublime, é suor de alma agonizante”.

Pense nisso, você é um arauto de Deus para ANUNCIAR AS GRANDEZAS daquele que os chamou das trevas para sua maravilhosa luz”. Assim, você será:

“Aqueles que são sábios reluzirão como o brilho do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre”. – Daniel 12.3 NVI
Você tem uma mensagem urgente!, ou seja, Jesus está voltando!

Soli Deo Gloria!
Fabio Campos

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] RAVENHILL, Leonard. Avivamento à maneira de Deus. São Paulo-SP: The Way Books, p. 63

[2] RAVENHILL, Leonard. Avivamento à maneira de Deus. São Paulo-SP: The Way Books, p. 93 – 94

[3] RAVENHILL, Leonard. Avivamento à maneira de Deus. São Paulo-SP: The Way Books, p. 37.

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Sermão ministrado na Igreja Cristã da Trindade – Jabaquara – em 20.08.2014


terça-feira, 19 de agosto de 2014

FONTE INESGOTÁVEL DE ALEGRIA


Por Fabio Campos

Texto base: “... a Deus, fonte da minha plena alegria”. – Salmo 43.4 (NVI)


O ser humano foi criado com a necessidade de se alegrar. O vazio que há em todas as pessoas testifica esta verdade, e o vácuo na alma do homem, demanda por algo que possa preenchê-lo. Toda ação gira em torno de satisfazer a necessidade de se alegrar. O caminho para esta busca pode tornar-se uma armadilha mortal, visto os vícios que proporcionam o prazer pecaminoso na tentativa de ocupar este vazio trazendo por um instante uma pseudo-alegria.

Alegrar-se não é pecado; pelo contrário, foi uma necessidade criada por Deus. A questão é “no que se alegrar”. Gosto muito da primeira questão tratada no “Breve Catecismo de Westminster, que diz: Qual é o fim principal do homem”? Resposta: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Deus nos deu Ele mesmo pra gente se alegrar. Ou seja, Ele nos dá desta graça, a de poder dEle desfrutar com todo nosso ser para nos alegrarmos no que Ele é.

O mundo têm várias propostas atraentes a nossa carne. Por meio delas quando concebidas através pecado, gera a morte. Quem peca, escravo do que pecado se torna. Todos pecaram e do pecado se tornaram servos, obedecendo a suas paixões. Todavia, Jesus disse que se Ele nos libertar verdadeiramente seremos livres. Esta liberdade é uma troca “no que nos alegramos”, como bem disse Davi: “Daí me a alegria da tua salvação” (Sl 51.12). John Piper diz que o único poder capaz de derrotar as concupiscências é a busca pelo prazer em Deus na alegria de Jesus [1].

Outro fator pelo qual Deus nos dá de Sua alegria, está no fato que no mundo teríamos tribulações. As coisas por aqui não são fáceis. Por isto o Senhor nos deu Ele mesmo para que, quando não houvesse motivo algum em se alegrar, seja nas coisas ou nas pessoas, Ele mesmo seria a suprema razão desta alegria. Paulo usou deste benefício quando estava preso e exortou os irmãos dizendo: “Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se” (Fp 4.4 NVI)! É importante salientar que Paulo disse isto quando estava preso.

Há muitas testemunhas nas Escrituras, que lhe fora concedida da alegria de Deus em situações adversas. Habacuque em tempo de fome se alegrou no Deus da sua salvação (Hb 3. 17-18); os apóstolos se alegraram em Deus quando estavam sendo perseguidos (At 5.41);  Paulo e Silas cantavam quando estavam presos (At 16.25); Paulo também se alegrou em Deus na hora da pobreza (2 Co 6.10).

Não estou fomentado e endossando o sofrimento. Creio que ninguém gosta de sofrer. A questão é que na vida passamos por estas situações que demandam um antídoto para o restabelecimento da saúde da alma. Hoje você pode se afligir ao pensar que tais coisas lhe venham acontecer. Contanto, devemos entender que amanhã haverá graça para os problemas de amanhã. Essa graça não será concedida hoje [2]. John Piper diz que a alegria é algo muito sério na vida do Cristão, pois é a forma de conviver com o sofrimento e sobreviver e esse sofrimento [3].

Muita das coisas que nos traz ansiedade está na percepção daquilo que venhamos um dia a sofrer. Precisamos entender que o amanhã não chegou e que muitas delas não nos alcançarão. Por isso precisamos viver o dia e como bem disse Nosso Senhor: “basta a cada dia o seu próprio mal”. Não há motivo no presente para ficarmos atemorizados e pesados no espírito pelo dia de amanhã; antes, então, devemos nos alegrar hoje, pois foi o dia que o Senhor fez.

Muitos pensam que nós, crentes, por não desfrutarmos dos “prazeres” carnais, somos infelizes. Eu posso falar que já fui um consumidor da “comida do mundo”. Todavia, experimentei uma alegria maior. Esta alegria me dominou dentro da minha realidade; está em saber que pertenço a Deus, e que ainda que venha a passar por todo tipo de dificuldades, não por isso, Ele deixará de me amar, pois nada poderá me separar deste amor que se encontra em Cristo Jesus, o Senhor. Estar em Jesus é ter a alegria completa. Contrapondo os religiosos de dura cerviz, que não conseguem dar um sozinho, Nosso Senhor é totalmente alegre (Jo 15.11). Não pense você que Jesus é o “senhorzinho” ranzinza e rabugento. Ele é o Deus que se alegrou em tudo que fez e que faz. No céu não há tristeza! A festa é ainda maior quando um pecador se arrepende.

Para você ter uma ideia da alegria de Deus, no ato da criação, estrelas e anjos juntamente se alegravam enquanto Deus coloca os fundamentos da terra (Jó 38.7). Infelizmente grande parte da igreja têm se alegrado nas bênçãos de Deus e não no Deus das bênçãos. Visto as igrejas midiáticas com suas campanhas de prosperidade e saúde. Sempre oferecendo as bênçãos e não apresentando o abençoador. Este é o tipo de pessoa que não ama a Deus, mas sim a si mesma. Por isso que muitos não têm alicerce na sua fé, e na primeira luta, abandonam a Deus. John Piper diz que “toda alegria que não têm Deus no centro é irreal e, com o passar do tempo, irá estourar como uma bolha” [4]

Quem de fato encontrou a alegria em Deus não depende dos acontecimentos para ser feliz; ainda que Deus diga “não” aos nossos pedidos, nEle nos alegramos por saber que somos amados, e assim o fez para o nosso bem. Quem teve um encontro com Deus através de Jesus Cristo, é semelhante ao homem que achou o tesouro escondido no campo. Sem pensar duas vezes no que já possuía, vendeu tudo, e “cheio de alegria, comprou o campo por saber que ali havia um tesouro infinitamente mais valioso; a saber, o próprio Deus (Mt 13.44). Esta é a alegria em Deus no Seu Filho Jesus.

A alegria fora de Deus é passageira e dura apenas por um instante (Jó 20.5). Ainda que se tenha o sorriso no rosto, o coração é triste, e a sua alegria sempre termina em tristeza (Pr 14.13). A ressaca pós-embriaguez ilustra isto muito bem. A alegria em Deus só aumenta a cada dia; experimentamos hoje apenas um pouquinho daquilo que vamos ter na eternidade (Is 35.10). Não é na comida ou bebida que o crente se alegra, mas no Espírito Santo (Rm 14.17). Ainda que venhamos a sofrer e nos entristecer, certamente, a alegria virá pela manhã (Sl 30.5). Se você ainda não tem esta alegria, ore a Deus e peça para Jesus entrar no seu coração. Busque por mais você que já se alegrou em Deus, pois a fonte é inesgotável.

O meu desejo sincero é que as pessoas vejam esta alegria em nossa vida, pois assim responderemos com propriedade a razão da nossa esperança. Que Cristo nos abunde de si mesmo em nossa vida. Portanto, sem limites, desfrutemos de Deus - de tudo que Ele fez e faz - e principalmente, de tudo o que Ele é!

Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração,

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos
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Notas: 

[1] PIPER, John. O que Jesus espera de seus seguidores. São Paulo: Editora Vida, p. 92.
[2] Ibid, p.130.
[3] Ibid, p. 95.
[4] Ibid, p. 90.