segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

EU CREIO NA CONTEMPORANEIDADE DOS DONS




Por Pr. Silas Figueira

Muitas pessoas têm me questionado se eu creio na contemporaneidade dos dons, a essas pessoas eu tenho respondido que sim, mas aí surge uma nova pergunta, como eu posso acreditar na contemporaneidade dos dons se eu sou Reformado (calvinista)? Simples. Por eu ser calvinista é que eu creio, pois se eu creio na Bíblia e a tenho como regra de fé e prática como eu posso duvidar que o agir de Deus em relação aos dons foi só para uma determinada época?

A Bíblia nos fala em 1Co 12.7-11 a respeito de nove dons espirituais:

12.7 A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.

12.8 Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento;

12.9 a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar;
12.10 a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.

12.11 Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente.

Muitas pessoas pensam que por eu crer na contemporaneidade dos dons eu sou um pentecostal do reteté, que eu apoio essas manifestações em nome do Espírito Santo que, infelizmente, mais parecem coreografia de centro espírita; eu não apoio nada disso e na igreja que pastoreio isso não ocorre. Eu quero deixar bem claro que eu sou radicalmente contra a tudo isso, aliás, no meio pentecostal eu sou visto como uma pessoa “tradicional”, ainda mais por pertencer a Convenção Batista Brasileira, mas no meio “tradicional” eu sou visto como renovado. No que eu creio então, muitos perguntam, já que eu desaprovo essas manifestações? Eu creio em tudo que está escrito em 1Co 12-14 não só por estar escrito como também por experiência própria. Durante esses quase trinta anos que sirvo a Deus eu tenho aprendido e visto muitas coisas. Tanto o agir de Deus, quanto o agir de Satanás, pois nós não ignoramos os seus desígnios, como disse o apóstolo Paulo. Se a Bíblia nos fala na ação de Satanás e Paulo deixou isso bem claro em Efésios 6 onde diz que devemos nos revestir de toda a armadura de Deus para resistirmos no dia mal, como eu posso aceitar que as manifestações e ataques de Satanás são para hoje e duvidar das promessas de Deus e dizer que esse revestimento de poder e autoridade que se encontra em 1Coríntios 12 ficaram no passado? Como dizem alguns que isso cessou com a morte com os apóstolos? Isso é incoerente.

Se for assim eu também não posso crer quando Paulo nos fala a respeito do Fruto do Espírito. Isso também cessou com na morte do último apóstolo?

No entanto eu quero deixar bem claro que os dons espirituais não foram dados à igreja para projeção humana e nem é uma forma de medir o grau de espiritualidade de uma pessoa ou igreja. A Bíblia nos fala claramente que os dons foram dados para a edificação do Corpo.

Hernandes Dias Lopes observa que existem quatro posições em relação aos dons dentro da igreja. São eles:

1 – Os cessacionistas. São aqueles que creem que os dons de sinais registrados em 1Coríntios 12 foram restritos ao tempo dos apóstolos . Para os cessacionistas esses dons não são contemporâneos nem estão mais disponíveis na igreja contemporânea.

2 – Os ignorantes. São aqueles que não conhecem nada sobre dons. Paulo orienta os coríntios para não serem ignorantes com respeito aos dons espirituais. Havia gente na igreja que ignorava esse assunto, e por isso, não podia utilizar a riqueza dessa provisão divina para a igreja.

3 – Os medrosos. São aqueles que têm medo dos dons. Aqueles que têm medo dos excessos. Medo de cair em extremos. O medo leva as pessoas a enterrar os seus dons e não utilizá-los para a glória de Deus nem para a edificação do corpo.

4 – Os que creem na contemporaneidade. São aqueles que creem que os mesmos dons espirituais concedidos pelo Espírito Santo no passado estão disponíveis para a igreja atualmente [1].

O problema não são os dons espiritais, mas o mau uso deles. Por isso que o apóstolo Paulo chama a atenção da igreja de Corinto em relação a isso. Pois apesar de tantos dons aquela igreja era totalmente carnal. Não havia maturidade espiritual, esta era uma igreja infantil (1Co 3.1,2):

“Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais.”

Mas tem uma coisa que me chama a atenção é que um dos dons mais questionáveis é o falar em línguas, os outros até não se questiona tanto, mas o falar em línguas esse é terrivelmente questionável. Não é porque se duvida desse dom em particular que ele não é para hoje. Muitos ainda dão a belíssima interpretação de que esse dom é a facilidade em aprender novos idiomas, mas não é isso que o texto fala. Eu conheço gente que é poliglota e está longe de ter uma vida com Deus. Isso não é justificativa.

Citando mais uma vez o Rev. Hernandes Dias Lopes, ele diz que é importante ressaltar que o dom de variedade de línguas tem valor. Tudo o que Deus dá é importante. Se é o Espírito Santo que dá esse dom, então, ele tem valor [2]. No entanto eu quero ressaltar que esse dom não edifica a igreja, mas a pessoa que o tem, a não ser que haja interprete (que é também um dom), para interpretar o que está sendo falado e assim toda a igreja será edificada. Tanto que o apóstolo Paulo fala que se não houver intérprete que a pessoa fique calado (1Co 14.27,28):

“No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.”

Não devemos dar maior valor a um dom que a outro, pois todos são importantes. Mas o que temos visto no meio pentecostal é uma importância muito grande ao falar em línguas, como se esse dom fosse a prova cabal de que alguém foi batizado no Espírito Santo. Mas eu quero destacar duas coisas que são de muita relevância em relação a esse assunto. Primeiro, se nós observarmos na relação dos dons o falar em línguas ocupa o penúltimo lugar entre os dons. Com isso eu vejo que a pessoa pode ter qualquer outro dom e não falar em línguas. Em segundo lugar, o batismo no Espírito Santo é a imersão no corpo de Cristo no momento da conversão, como nos deixa claro em 1Co 12.13:

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.”

Aquilo que os pentecostais chamam de Batismo no Espírito Santo na verdade deveria ser chamado de “Revestimento de Poder”, que é real, só o nome que está errado.

Talvez você então venha questionar o que é esse “agir de Deus” na maioria das igrejas pentecostais, quero falar isso com muito temor e tremor que isso muitas vezes não passa de histeria, quando não muito a ação satânica. Assim como os crentes da igreja de Corinto vieram, na sua maioria, das religiões de mistério, pois adoravam aos ídolos e eram guiados por espíritos satânicos e muitos deles queriam incorporar ao culto a Deus esses rituais é isso o que temos visto hoje em muitas igrejas pentecostais uma cópia de muitos centros espíritas. Temos visto o rodar, o correr, a dança, dons dos mais diversos que não constam na Bíblia e por aí vai. Mas eu quero deixar bem claro que por isso estar acontecendo em muitas igrejas não anula o agir de Deus em nosso meio hoje e nem deveríamos deixar de lado o que a Bíblia tem para nós hoje.

Os dons têm um propósito, pois tudo que Deus nos dá tem um propósito. Eles são para a edificação da igreja. O benefício não é individual, mas para que toda a igreja seja edificada. Não tenha medo de buscar de Deus esses dons, deixe o Espírito Santo usar você para que o Corpo de Cristo que é a Sua Igreja seja ainda mais abençoado.

Pense nisso e fique na Paz!

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Notas:

1 – Lopes, Hernandes Dias. 1Coríntios, como resolver conflitos na igreja, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 224.

2 – Ibid, p. 226.