segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NÃO TOQUEIS NO UNGIDO?


Por Fabio Campos

Quantos escândalos vieram por meio daqueles que se diziam “ungidos do Senhor”. Quanta gente ferida, manipulada e opressa por líderes religiosos megalomaníacos centralizadores que usaram e ainda usam malignamente textos que assim dizem [ser eles os ungidos] os distorcendo como fez satanás no salmo 91 para tentar a Cristo no deserto. Texto fora do contexto vira pretexto, e como diz o Pr. Paulo Romeiro: “A Bíblia é como uma navalha; ou você faz a barba ou você corta o pescoço”.  Precisamos entender o que de fato é ser “ungido” de Deus.

No antigo testamento era comum ungir a mobília do templo. Aos homens, esta prática, era para consagração ou separação ao oficio de profeta, rei ou sacerdote. A vista de todos o azeite era derramado sobre a pessoa que fora chamada, confirmando assim seu ministério perante os homens. Quando Deus chamava alguém para o serviço, antes Ele o santificava, e isso se dava por meio da unção com o azeite [método físico]. Todo aquele que era levantado por Deus para exercer a função de liderança era conotado como “ungido do Senhor”. Esse título não estava restrito somente ao povo de Deus, mas o Senhor o deu a alguns ímpios, como foi o caso do rei Círo (Is 45.1), levantado para cumprir os propósitos do Senhor por intermédio de sua autoridade frente ao império.

Como disse - os charlatães têm manipulado a muitos com alguns textos isolados que carregam este significado [“ungido do Senhor”]. A grande maioria usa a piedade de Davi em favor de Saul. Porém, todas as vezes que Davi dizia “longe de mim tocar no ungido do Senhor”, o dizer de Davi refere a “integridade física de Saul e não moral (1 Sm 24.6,11; 26.8-9). A integridade física do homem é tão preciosa que Deus não deixou Davi construir o templo mesmo sendo justo, por causa das suas mãos sangrentas. Contudo, moralmente, Davi repudiou tal atitude de Saul. Antes de consentir com o erro, repreendeu o rei pela atitude tola (1 Sm 24.12-13). Usar deste texto para dizer “não toqueis no ungido”, e tolerar os erros destes “pregadores” de bom grado, de fato, trata de um grande engano, sem contexto e respaldo bíblico.

Outro texto e talvez o áureo para os manipuladores seja o de 1 Cr 16.22 que diz: “Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal”. Quando você escutar algum pregador citando este texto para coagir os membros de sua igreja a obedecê-lo, fique de olhos bem aberto, e se possível, corra. Quem são os “ungidos” e “profetas” mencionado em 1 Cr 16.22 paralelo ao Sl 105.15? Certamente não é ninguém de hoje! O texto trata de uma advertência aos ímpios no passado lembrando Israel daquele contexto acerca das maravilhas e prodígios que Deus fizera em benéfico do seu povo (1 Cr 16.12-15). Portanto, os ungidos que o texto trata não é o pastor da sua igreja - ou bispo da televisão - nem os apóstolos de jatinho que voam por este Brasil a fora. O texto trata de Abraão, Isaque e Jacó (1 Cr 16.16-17).  Repare que o contexto está dizendo o que aconteceu e não o que vai acontecer:

A ninguém permitiu que os oprimisse, e por amor deles repreendeu reis, dizendo: Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal. (1 Cr 16.21-22 NVI)

Desculpe-me, mas usar este texto com a finalidade de intitular-se “profeta” e “ungido”, coagindo os liderados rumo a uma obediência cega, ou é muita “pilantragem gospel”, ou “burrice bíblica desprovida de temor”. Perdoem-me a franqueza.

Sabe a síndrome de Samuel? Tolerar aquele que Deus o rejeitou: “Então disse o SENHOR a Samuel: Até quando terás dó de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? (1 Sm 16.1 AFC). O Saul que você usa para defender os seus ungidos foi rejeitado por Deus. Tem muita gente tolerando aquilo que Deus abomina. Prefere o ensino humano sem respaldo bíblico do que aquilo que é cem por cento seguro dito pelo próprio Deus através das Escrituras Sagradas.

Amados, hoje estamos debaixo de uma “outra unção”. A palavra “ungido” provém do grego e significa “Chistos”, adaptada ao português para “Cristo”. Só há Um de fato que é Ungido, a saber, Jesus, o Cristo [Ungido] de Deus. Toda unção entregue aos profetas, aos reis e aos sacerdotes tipificou a unção daquele que seria Tudo em todos. Jesus é o nosso Profeta (Hb 1.1), é o nosso Rei (Hb 1.2), e o nosso sacerdote (Hb 4.14). Todos estes ministérios agora se encontram na pessoa de Jesus Cristo. Por isso que Paulo diz: “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus (Gl 3.28). Só há Um Ungido e todos os outros estão igualmente debaixo desta unção sem privilégios sobre os demais:

Mas vocês têm uma unção que procede do Santo, e todos vocês têm conhecimento” (1 Jo 2.20 NVI).
Por que todos estão sobre a mesma condição diante de Deus? Porque só Jesus é o Ungido:

“Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou”. (1 Jo 2.27 NVI)

O sacerdócio dos crentes não é local, mas universal, como ensina Pedro:

“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9 NVI)
Por que então muitos se apropriam deste título [“ungido do Senhor”] como se fosse o “queridinho” de Deus? A Bíblia não ensina isso!

O que me espanta [de alegria] é ver pastores que de fato foram chamados por Deus, que trabalham com muita seriedade e amor na obra, não tomarem para si este título. Aqueles que talvez pudessem falar algo a respeito preferiram tornarem-se servos de todos seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todo pregador está sujeito a erros - seja nos ensinos - seja nas pregações - e por isso devem ser julgados (1 Ts 5.21). Comparar os ensinos que ouvimos com as Escrituras deve ser um hábito (2 Tm 3.16-17). Precisamos estar vigilantes acerca dos falsos ensinos (Rm 16.17,18; 1 Tm 1.3,4; 4.16; 2 Tm 1.13,14; Tt 1.9; 2.1). Paulo como apóstolo de Cristo não condenou os bereanos quando sua pregação foi arrazoada pelos irmãos; antes, os elogiou, dizendo ser estes mais nobres porque conferiam sua ministração com as Escrituras para saber se sua doutrina era coerente com o ensino escriturístico (At 17.11).

Quantas pessoas estão presas a estes líderes com medo de expressar suas opiniões temendo uma “possível retaliação divina”. Graças a Deus Jesus me libertou! “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A “carnificina espiritual” só tende a aumentar se continuarmos a dar crédito a esses pseudo-pastores. Isso tem que acabar! Que Deus abra nosso entendimento para não sermos escravos de homens (1 Co 7.23). Os apóstolos de Jesus não se apossaram deste título, antes todos chamavam uns aos outros de irmãos no convívio comum.

Quero encerrar com algumas reflexões direcionadas aos meus irmãos que defendem essa tese [ungido do Senhor] pautando seus argumentos nos texto de 1 Samuel capitulo 24 e 26 e no texto de 1 Cr 16.22:

1)     Você se submeteria ao pastorado de alguém como Saul?

2)     Concernente aos líderes megalomaníacos que vira e mexe trazem escândalos ao evangelho, você se submeteria ao pastoreado destes homens duvidosos?

3)     Você acha que não existe falso profeta?

Entenda, o melhor falso é aquele que mais se parece com o verdadeiro. Milagres, prodígios e maravilhas não é parâmetro para a aprovação de Deus:

Pois aparecerão falsos cristos [ungidos] e falsos profetas que realizarão sinais e maravilhas para, se possível, enganar os eleitos”. (Mc 13.22 NVI)

Nenhum líder cristão pode reclamar uma posição especial diante de Deus acima dos outros ou da crítica doutrinal e moral. A escolha está com você! Certamente, se Cristo vos libertar, verdadeiramente series livres. Viva em Cristo, este é o meu desejo para todos nós.

“Então ouvi outra voz dos céus que dizia: “Saiam dela, vocês, povo meu, para que vocês não participem dos seus pecados, para que as pragas que vão cair sobre ela não os atinjam”“!   – Apocalipse 18.4 (NVI)

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos
fabio.solafide@gmail.com