sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A ORAÇÃO DE CRISTO CONTRA O PARTIDARISMO NA IGREJA


Por Fabio Campos

Texto base: Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti”. – Jo 17.21 AFC

Leia novamente o texto acima usado por base para esta reflexão. Amém? Se isto de fato fosse nossa norma, não entraríamos em muitas discussões. Quanta negligencia nos “corredores teológicos” com este versículo. Uma súplica do Deus-Filho para o Deus-Pai em favor da unidade de sua igreja. Quanta falta de temor revestido de piedade! Pessoas que fazem do “secundário”, o “fundamental”, caracterizando “aquele ou aquilo” como sendo do Diabo. Logo quando um debate entre cristãos começa por meio de zombarias e ataques pessoal, percebe-se que ali não há o temor de Deus nem a sabedoria do alto.

Nuances teológicas tem trazido um orgulho aumentando os partidos sectários dentro do corpo de Cristo. Como isso tem “manchado” o Evangelho! Parece até que Ele foi divido. Nada muda! Os fariseus, os saduceus, zelotes e essênios, foram substituídos pelos os de Paulo, Pedro e de Apolo. Você me entendeu! Existem pessoas que são ligadas pela igreja instituição - outras estão ligadas pela teologia, ou seja, antes de sermos um em Cristo, preciso saber se você é calvinista ou armíniano - se é dispensacionalista ou tem por crença a “teologia do pacto” – se é pré-milenista, pós-tribulacionista ou amilenista? Apenas mais uma para saber se posso chama-lo irmão: É “dicotomista” ou “tricotomista”? Estamos assim, hoje!

Gostei muito da definição de “orgulho espiritual” dita pelo irmão Solano Portela:

“Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos Seus servos. Seria achar que somos conhecedores de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram”. [1]

Infelizmente há muitos teólogos que se deixaram levar pela “Síndrome da descoberta da pólvora”, prejudicando a comunhão entre os santos, dando munição para os inimigos da Cruz atacar a igreja blasfemando do caminho da verdade.

Não quero menosprezar aqueles que, pelo manuseio teológico, nos ensinou as doutrinas fundamentais e secundárias dentro do ensino cristão. A teoria do “Efeito em cascata” é uma prova de que todos os cristãos estão profundamente influenciados pelos apologistas, pelos pais da igreja e pelos reformadores. Muitos que hoje defendem a Divindade de Cristo não conhecem Atanásio, o qual apresentou um argumento sólido em favor da divindade do Filho de Deus. O teólogo Hans Kung diz que “Deus mantem a igreja na verdade, mas não na evolução tranquila da sua descoberta progressiva”. Os hereges contribuíram em muito para que as doutrinas cristãs fossem elaboradas por meio das Escrituras, trazendo o entendimento apropriado da verdade. Acerca disso Lutero diz: “Nunca se sabe quando Deus pode golpear violentamente com uma vara torta”. Até o vaso de desonra é útil para Deus – assim são manifestos os sinceros dentro do seu eterno propósito.

Não existe nenhuma doutrina do cristianismo que tenha surgido do nada! Cada crença quer considerada “ortodoxa” (teologicamente correta) ou “herética” (teologicamente incorreta), nasceu de um desafio. Seja pelo distorção do evangelho que aparentava cristã ou por uma crença popular ou por qualquer outra coisa que era considerada como não-bíblica ou antiética a fé cristã autêntica. Mesmo uma pergunta aparentemente estranha como: “Quantos anjos conseguem dançar na cabeça de um alfinete?”, não era debatida pelos pensadores cristãos no passado apenas para matar o tempo, nem para dar a impressão de serem eruditos. A questão era explorar a natureza de seres espirituais não-humanos, como os anjos, e refutar a ideia de quem seriam seres materiais que ocupavam espaços.  Por isso também me preocupo com aqueles que não querem saber de teologia e acham estes estudos uma grande bobagem. É preciso estudar e se aprofundar mais no que cremos. Ninguém consegue servir fielmente a Deus sem saber alguma coisa a respeito da natureza e vontades divinas. Ler e compreender a história da teologia cristã requer a consciência prévia de que os cristãos das eras passadas que se debatia com as questões doutrinárias realmente se preocupavam em crer nas coisas certas a respeito de Deus.

Temos que ter a prudência de saber o que é essencial e o que é secundário e periférico. Nas doutrinas fundamentais, por exemplo, a crença da “Divindade de Cristo”, a “Salvação pela fé somente, a “Trindade” e a “Encarnação do Verbo”, isso é necessário e precisa ser unânimes entre os cristãos. Mas se um fala em línguas e o outro não - se um é dicotomista e o outro é tricotomista – essas coisas são secundárias, tendo a liberdade acompanhada de amor. Chamamos isto de “Adiáfora”, palavra que provem de um termo em latim que significa “coisas que não são muito importantes” ou “questões de indiferença”. A historia da igreja foi maculada por muitos fundamentalistas no que é periférico ao ponto de terem ocorrências de mortes e assassinatos em nome de Deus. Afogamentos e fogueiras foram as armas do “Espirito Santo” para tanta tragédia, segundo eles. Lamentável!

O texto base usado para a reflexão, “que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti”, deveria amenizar nossas discussões calorosas. Antes de tudo é necessário entender que o Salvador orou pela unidade da igreja. Somos muitos em um único corpo. Ainda que individualmente, somos membros um dos outros (Rm 12.5). Participantes do mesmo pão (1 Co 10.17), e quem deu o pão foi Cristo, e nós por vezes retemos o mesmo aos famintos por causa das divergências. Já não há mais grego nem judeu, homem nem mulher, pois todos estão em Cristo (Gl 3.28) para um único propósito: “chegar a ‘unidade’ da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13): “Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico a todos vocês que concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês, e, sim, que todos estejam unidos num só pensamento e num só parecer” (1 Co 1.10 NVI).

Se vivermos em paz em um mesmo parecer, o Deus da paz será conosco (2 Co 13.11). Este é um motivo pelo qual saímos atribulados e exaustos de alguns debates. A falta de paz é a ferramenta que Deus usa para nos avisar que Ele não está no meio disto. Quando a motivação não é preservar a unidade por meio do Espírito, no vinculo da paz (Ef 4.3), é preciso nos acautelar. Precisamos combater juntamente com o mesmo ânimo, firmes no mesmo espírito, a fé do evangelho (Fp 1.27) e não entre nós, um contra o outro, aquilo que é certo e respaldado pela verdade. Cristo é a nossa paz - essa é bandeira a qual defendemos (Ef 2.14).

O que não podemos perder de vista em temor e tremor, e também para não se tornar um sectário, é saber que Jesus acolheu o débil na fé. Que o servo é Dele e não nosso, para fecharmos a porta da graça que Ele nos abriu com tanta misericórdia.  Quem o sustenta é seu Senhor, e isto antes de qualquer coisa deveria a nós causar o temor, visto que seremos julgados pelas obras que fizemos pelo corpo de Cristo. A graça de Deus tem em vista de nos tornar humildes para com todos já que Ele, Deus, escolheu nos amar mesmo na ignorância dos nossos pensamentos dos seus mistérios ocultos (Dt 29.29). Acerca disso o irmão Portela diz:

“Não podemos nunca menosprezar a simplicidade dos crentes comuns, resgatados que foram por Cristo Jesus, pelo Deus soberano que todos amamos, predestinados desde antes da fundação do mundo, separados para a glória do Deus todo-poderoso. Eles sabem o que é justificação, mesmo que nunca tenham ouvido falar de Lutero e Calvino, mesmo que não consigam dizer o que são os cinco pontos do calvinismo, mesmo que não consigam explicar o que é justificação. O Deus poderoso que salva, o faz soberanamente, não dependendo da perspicácia, lógica ou inteligência do escolhido”. [2]

Infelizmente as redes sociais estão sendo usadas por alguns para “glorificar a si” por meio da Glória de Deus. Pregam a Cristo por porfia ou por inveja. Estão certos na teologia, mas errados nas motivações. Os jovens são os mais tentados nesta área, principalmente os seminaristas. A ordem de Paulo ao Jovem Timóteo é “fuja destas paixões”, dispensando as questões insensatas e absurdas que só fomentam contendas. Antes é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, seguindo a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor (2 Tm 2.22-25).Tratando deste assunto, Solano Portela diz:

“Com frequência encontramos a ocorrência deste pecado nos jovens que foram expostos e convencidos das realidades das doutrinas da graça. Após devorarem alguns livros, após aprenderem a formular e a discutir os ‘cinco pontos’, eles estacionam por aí. Acham, entretanto, que já dominaram tudo o que se pode saber, dedicando-se a grandes e extensas discussões, como se fossem mestres”. [3]

Amados, sinceramente, a cada dia me afasto destas discussões. Como pentecostal [reconhecendo os abusos que devem ser denunciados] vejo o tamanho do preconceito por parte de alguns irmãos reformados ou “cessacionistas”. Piadas e mais piadas, afirmações desprovidas da graça de Deus e a falta de respeito por aquele que foi resgatado porque Creu. Não quero fazer coro com esta gente - não quero me tornar um sectário e nem tão pouco estar ligados a pessoas somente pela teologia - quero fazer parte daqueles que amam a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo – quero andar com gente que combate a fé com equilíbrio e, mesmo discordando dos meus manuseios teológicos secundários, me respeitem e me tratem como irmão amado que foi regenerado em Cristo Jesus o Senhor, o qual é acima de todos e Deus Bendito para sempre.

Que assim seja! Que o vinculo da perfeição seja o amor - que não venhamos a nos tornar hereges e sectários do ponto de vista divino no proceder um para com os outros. Antes de sermos aprovados pelos homens, sejamos por Deus, e este se enquadra nestas qualidades:

“Quanto ao mais, tenham todos o mesmo modo de pensar, sejam compassivos, amem-se fraternalmente, sejam misericordiosos e humildes”. – 1 Pe 3.8 NVI

Lembre-se, o Salvador orou por isso:

“Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós”. – Jo 17.11 AFC

Soli Deo Gloria!

Fabio Campos


Referência bibliográfica das citações:
[1] Cinco Pecados que ameaçam os Calvinistas; Portela, SOLANO; Ed. PES; P.5.

[2] Cinco Pecados que ameaçam os Calvinistas; Portela, SOLANO; Ed. PES; P.12,13.

[3] Cinco Pecados que ameaçam os Calvinistas; Portela, SOLANO; Ed. PES; P.30.

Referência bibliográfica para o contexto histórico:
História da Teologia Cristã; OLSON, Roger; Ed. Vida Acadêmica