quinta-feira, 25 de julho de 2013

SUCESSOR DE PEDRO OU DE CÉSAR? A PRIMAZIA PAPAL E SUAS CONTROVÉRSIAS!


Por Fabio Campos

Texto base: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”. (1 Tm 2.5 AFC)


As Escrituras não podem falhar (Jo 10.35), o Verbo de Deus, Jesus Cristo, que pela Palavra da Verdade, liberta o homem dos conhecimentos humanos contrários aos parâmetros estabelecidos por Deus. O Brasil está agitado. A vinda do papa Francisco foi aguardada em grande expectativa entre os fiéis católicos.

Antes de abordar o tema de uma forma bíblica e histórica, quero deixar o meu respeito e carinho pelos católicos. O artigo não tem por finalidade a de denegrir a religião de ninguém; mas em um breve estudo, pelas Escrituras, trazer luz a respeito do papa e a sua primazia naquilo que se refere a “cadeira de Pedro”.

A igreja após a “conversão de Constantino” foi direcionada pela liderança do imperador e dos bispos de Roma. Com a fusão da religião cristã e do império romano, o poder bélico foi perdendo sua “força aparente”, e em um ponto da história, o imperador foi substituído pelo papa, naquilo que foi constituído pela Eclésia. De acordo com o ensinamento oficial da Igreja Católica Romana, definido no Primeiro Concílio do Vaticano (1870), Jesus Cristo estabeleceu o papado com o apóstolo Pedro; e o bispo de Roma como sucessor de Pedro exerce a autoridade suprema (primazia) sobre toda igreja.

A história indica que o conceito de reinado papal foi estabelecido em estágios penosos e lentos. Nesse processo, Leão é a figura principal por fornecer pela primeira vez as bases bíblicas e teológicas da reivindicação papal. Por isso, é um engano falar de papado antes dessa época. O título “papa” expressa o cuidado paternal de todos os bispos do rebanho. Começou a ser reservado para o bispo de Roma apenas no século VI, muito depois da reivindicação de primazia.

Antes de sua eleição para o ofício papal, Leão, um nobre de uma região ao norte de Roma, foi mandado à Gália pelo imperador para arbitrar a disputa. Quando o bispo de Roma morreu, o clero romano enviou um delegado para informar Leão que a escolha de um novo bispo havia recaído sobre ele.

No sermão que pregou no dia de sua posse, Leão louvou a “glória do abençoado apóstolo Pedro cuja cadeira seu poder vive e sua autoridade brilha”. Leão fez sua entrada na história como chefe supremo de toda a cristandade. Leão, o primeiro papa, baseou o fundamento teórico para a primazia papal apelando ao testemunho triplo do evangelho (Mateus 16.13; Lucas 22.31-32; e João 21. 15-17): Cristo prometeu construir sua igreja sobre Pedro, a pedra para todas as épocas, e os bispos de Roma são seus sucessores nessa autoridade, dizia Leão. Um século mais tarde elevou o status do ofício do bispo em Roma de uma vez por todas. A dinastia de Pedro, príncipe da igreja, foi estabelecida, solenemente, de forma decisiva.

O que não estava nos planos de Roma era o propósito de Deus de reformar sua igreja, voltando à doutrina dos profetas e dos apóstolos, o qual Cristo é a Pedra Angular. Depois da pré-reforma, a emancipação de Roma se deu por meio de Martinho Lutero (1483-1546), pai da Reforma Protestante. Em 1517 Lutero fixou suas 95 teses na porta da igreja do Castelo, em Wittenberg. Os cinco pilares da Reforma, o Sola Christus (Somente Cristo), fez cair por terra a supremacia papal diante dos leigos dominados e manipulados pela igreja romana. Com o advento da Reforma todo crente em Jesus passou a ler e a interpretar as Escrituras. O sacerdócio centralizador do papa foi substituído pelo o universal, ensinado pelo próprio Pedro (1 Pe 2.9). O sacerdócio real é concedido a todo aquele que tem a fé em Jesus Cristo e no seu sacrifício vicário.

A teologia Romana com base em Mateus 16.18, quando Jesus diz a Pedro “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, declara que a expressão “esta pedra” significa que a igreja está edificada sobre Pedro, que foi o primeiro papa e exerceu este cargo em Roma durante vinte e cinco anos. A nota de rodapé da Bíblia apologética ICP emite a seguinte refutação:

“A expressão ‘sobre esta pedra’ está relacionada à resposta de Pedro, que disse: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo’. É sobre Cristo que a Igreja já foi edificada e não sobre Pedro. Jesus afirmou que Ele próprio era a Pedra (Mt 21.42). A afirmação de Jesus é uma interpretação veraz do salmo 118.22. O próprio Pedro identifica Jesus como sendo a pedra (At 4.11,12; 1 Pe 2.4-6). Se Pedro foi papa durante vinte e cinco anos, então existe algo errado, já que o apóstolo foi martirizado no reinado de Nero, entre os anos 67 e 68 a.D. Subtraindo desta data vinte e cinco anos, retrocedemos ao ano 42 ou 43 A.D. Nessa época, não havia sido realizado ainda concilio de Jerusalém (At 15); que ocorreu por volta do ano 48 a.D, ou um pouco depois. Pedro participou do Concílio, mas foi Tiago quem o realizou e presidiu” (At 15.13,19).

Os fundamentos da igreja católica para revogar o ministério papal contradizem a história e os acontecimentos em suas devidas datas.

Continuando com a refutação, a Bíblia ICP diz:

“O apóstolo Paulo escreveu sua epístola aos romanos no ano 58 a.D. e, no capítulo 16, mandou saudação para muita gente em Roma, mas Pedro sequer é mencionado. Por outro lado, Paulo chegou a Roma no ano 62 a.D e foi visitado por muitos irmãos (At 28. 30,31). E também nesse período não há nenhuma menção a Pedro ou a algum papa. O apóstolo Paulo escreveu quatro cartas de Roma: Efésios, Colossenses e Filemon (62 a.D) e Filipenses (entre os anos 67 e 68 a.D). Todavia, Pedro não é mencionado em nenhuma delas e, novamente, não se tem notícia do suposto pontificado de Pedro”.

O interessante é que Pedro em sua segunda carta (3.15-16) menciona Paulo pelo seu profundo conhecimento das Escrituras e pela autoridade apostólica que lhe foi dispensada. Já Paulo, que foi quem mais livros escreveu do Novo Testamento nunca mencionou uma “autoridade especial” concernente ao apostolo Pedro.

No contexto de Mateus 16.18 duas considerações em nota a Bíblia apologética ICT nos traz:

“[1] Enquanto Pedro é mencionado na segunda pessoa (tu), e expressão “esta pedra” está na terceira pessoa. [2] Pedro (petros) é um substantivo masculino, enquanto Pedro (petra), um feminino singular. Consequentemente, estas palavras não têm a mesma referência. Ainda que Jesus tivesse falado em aramaico, o original grego inspirado traz distinções. O interessante é que até as próprias autoridades teológicas católicas concordam que a referência bíblica em estudo não está relacionada a Pedro. O destaque aqui é para João Crisóstomo e Agostinho”.

“Agostinho, em seu comentário sobre o evangelho de João, escreveu: ‘Nesta pedra, então, disse Ele, a qual tu confessaste, eu construirei minha igreja. Esta Pedra é Cristo; e nesta fundação o próprio Pedro construiu’. Assim, não existe fundamento bíblico nem subsídio histórico para consubstanciar a figura de Pedro como papa” (Ef 2.20).

Outro argumento que a Igreja Católica usa está baseado em Mateus 16.19, quando Jesus diz a Pedro “... E eu te darei as chaves do reino dos céus...”; o catolicismo afirma que tanto Pedro quanto seus sucessores foram revestidos de um poder especial e exclusivo, tornando o papado infalível. A Bíblia Apologética de estudo emite a seguinte nota por refutação:

“A doutrina católica sobre a infalibilidade papal não encontra apoio nas Escrituras. Jesus, de modo algum, outorgou autoridade a outras pessoas para exercerem, de forma singular, a liderança (como cabeça) de sua igreja. Com base em Mateus 18. 15-20, Jesus estende a autoridade que concedeu a Pedro aos demais discípulos, como membros do corpo de Cristo. Esse tipo de autoridade era comum aos rabinos, que tinham o privilégio de dar “permissão” e “proibir”. Não se tratava de uma porção de poder exclusiva somente a Pedro. A igreja também recebeu a mesma autoridade, pela qual proclamamos o evangelho, o perdão de Deus e o julgamento divino aos impenitentes. Contudo, o único que tem proeminência sem igual é Cristo, a pedra angular. Os demais crentes, inclusive Pedro, são as “pedras vivas” nesta edificação”.

A Pedra angular é Cristo; ainda por continuação...

“O papel de Pedro, no Novo Testamento, está longe da reivindicação católica romana de que possuía e era autoridade sobre seus companheiros. Embora tenha sido o orador principal no dia de pentecostes, no entanto, sua atuação no restante do livro de Atos é escassa, sendo considerado tão-somente como “um dos apóstolos”. De forma muito clara, o apóstolo Paulo falou o seguinte: ‘Em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos’ (2 Co 12.11). Será que uma leitura mais cuidadosa da carta escrita aos gálatas nos levaria a aceitar que algum apóstolo foi superior a Paulo? Claro que não. Pois Paulo disse ter recebido uma revelação [do evangelho] que o seu chamado era semelhante ao ministério de Pedro (Gl 1.12; 2.2) ao ponto de usar da autoridade que tinha como apóstolo para repreender duramente o próprio Pedro (Gl 2.11-14)”.

Será que um papa aceitaria ser repreendido por um bispo ou padre? Pedro aceitou a repreensão de Paulo por saber que ele mesmo era suscetível a erros. Pedro era igual a todos:

“O fato de Pedro e João terem sido ‘enviados pelos demais apóstolos’ a uma missão especial em Samaria demonstra que Pedro não tinha uma posição superior entre eles (At 8.4-13). Se Pedro de fato fosse superior aos demais, por que é dispensada ao ministério de Paulo uma atenção maior, fato constatado nos capítulos 13-28, de Atos? No primeiro concílio realizado em Jerusalém (At 15) a decisão final não partiu de Pedro, mas, sim, dos apóstolos e dos anciãos. Além disso, foi Tiago, e não Pedro, que presidiu o conselho (At 15.13). Em momento algum, já que era, segundo o catolicismo, superior aos demais apóstolos, Pedro reivindicou ser pastor das igrejas, antes exortou os presbíteros para que cuidassem do rebanho de Deus (1 Pe 5.1,3). Embora reconhecesse ser ‘um’ apóstolo (1 Pe 1.1), não se intitulou ‘o’ apóstolo, ou chefe dos apóstolos. Sabia que era apenas um dos pilares da igreja, junto com Tiago e João, e não ‘o’ pilar (Gl 2.9)”.

Continuando...

“Segundo afirma o catolicismo romano, os ‘sucessores’ de Pedro ocupam sua cadeira. Quando, porém, analisamos as Escrituras, encontramos critérios específicos para o apostolado (At 1.22; 1 Co 9.1; 15. 5-8), de modo que não poderia haver sucessão apostólica no bispado de Roma ou em qualquer outra igreja”.

Portanto, as chaves não foram entregues a Pedro somente, mas a Igreja de Cristo; as “portas do inferno não prevalecerão contra a igreja”; não diz “contra Pedro”.

Imaginemos que o papa seja o “vigário (substituto) de Cristo como alega o catolicismo. Na renúncia do papa “Bento XVI”, a igreja ficou sem ninguém para representar a Jesus? Não! A Escritura nos diz que todo crente em Cristo é uma testemunha onde estiver (At 1.9). E o que dizer do “Grande cisma papal”! Quando Urbano governava Roma e Clemente em Avignon, eis que surgiu o tenebroso capítulo da história papal chamado o “Grande Cisma”. Estes papas que outorgaram a “primazia papal” para si tinham seu próprio Colégio de Cardeais, garantindo dessa forma a escolha papal de seu agrado. Cada papa alegava ser o verdadeiro Vigário de Cristo, com poder de excomungar qualquer um que não o reconhecesse. Quanta diferença de Paulo, que denunciou essa meninice na igreja de Corinto, quando uns dizia ser de Pedro, outros de Paulo e outros de Apolo. Categoricamente ele afirmou “foi Paulo, Pedro ou Apolo que morreu por vocês” (1 Co 3.1-10)? A Escritura é clara sobre a Soberania e Glória de Cristo, a qual não divide Ele com ninguém: Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo (1Co 3.11 AFC).

A França ficava com Clemente, e a Itália com Urbano. O Império ficava com Urbano, assim como a Inglaterra. A Escócia preferia Clemente. Em 1395, os principais professores da Universidade de Paris propuseram um concílio geral, que, representando a igreja Universal, se reuniria para acabar com o cisma. Mas surgiram complicações. A Lei canônica estabelecia que apenas o papa poderia convocar um concílio. Qual dos papas tinha esse direto, afinal?

Em 1409, uma maioria de cardeais de ambos os lados concordava que sim. Eles se reuniram para um concílio geral em Pisa, na costa oeste da Itália. Depuseram os dois homens que clamavam pela cadeia papal e elegeram um terceiro, Alexandre V. Mas nenhum dos dois homens depostos aceitou a decisão do concílio. Se um papa já é controverso teologicamente, agora, a igreja passou a ter não dois, mas três, reclamantes à cadeira de Pedro.
Três papas ao mesmo tempo é demais para qualquer um, especialmente quando deles se decide por uma cruzada contra o outro e passa a vender indulgências para viabilizá-lo. De fato, o papa não sabia se era sucessor de Pedro ou de César.

A palavra “Papa” vem do latim “pai” e Jesus fez sérias advertências aos discípulos a respeito de se “Centralizar o poder na figura de um líder humano, chamando-o de pai”:

“A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês têm um só Chefe, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo”. (Mt 23. 9-11 NVI)

O único caminho que leva a Deus, o da Verdade e o da Vida, já foi preenchido por Jesus Cristo (Jo 14.6).

Este artigo não foi elaborado para atacar o “papa”, mas abordar a luz das Escrituras e da história a primazia “papal”. Reconheço o trabalho e humildade do atual papa Francisco, mesmo tendo dificuldades de entender como alguém diz ser humilde possa aceitar o título eclesiástico de “papa”. A Escritura nos diz para imitarmos somente a Cristo (1 Co 11.1); Ele sendo a “Pedra Angular”, o “Cabeça e Noivo da Igreja”; aquele que é o Filho de Deus e Deus o Filho, O Verbo encarnado, o Deus Eterno, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo (Fp 2 .6-8).

O Nazareno manso e humilde de coração não nos chama de servos, mas de amigos; por meio Dele fomos feitos “filhos de Deus”, e como Deus não faz acepção de pessoas, não existem homens mais ou menos especiais quando em Cristo.

Portanto, só há um mediado entre Deus e os homens, Jesus Cristo; o papado sempre foi uma pedra de tropeço para a igreja e suas mãos estão cheias de sangue inocente.

Que Deus seja nosso guia na iluminação deste artigo nos fortalecendo na verdade que liberta e que nos traz a paz que excede toda compressão humana.

Sola Christus

Fabio Campos

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Referências bibliográficas:

Bíblia Sagrada apologética de Estudo ACF, ICP, Edição ampliada.
SHELLEY L. Bruce; História do Cristianismo ao alcance de todos; Ed. Shedd Publicações.