quinta-feira, 18 de julho de 2013

A CHAMADA PARA O MINISTÉRIO


Por Pr. Silas Figueira

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar”.  (1Tm 3.1-2 – ACF)

 “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho” (At 20.28-29 – ACF)

Creio que a vida do pastor começa com o seu chamado. Muitos pensam que é o seminário que faz o pastor, mas não é. O papel do seminário é a formação acadêmica do vocacionado. Erwin Lutzer define o chamado pastoral assim: O chamado de Deus é uma convicção interior, dada pelo Espírito Santo e confirmada pela Palavra e pelo corpo de Cristo. Agora é bom deixar claro que existe o pastor chamado e o chamado pastor. O primeiro é vocacionado por Deus, já o segundo se auto vocaciona.

 A vocação para o pastorado é a mais sublime de todas as vocações. O Rev. Hernandes Dias Lopes citando John Jowett diz: “que vocação pastoral não acontece quando você busca fazer medicina, e não consegue passar no vestibular; corre para engenharia, e não logra êxito; bate à porta de outro curso universitário, e também fracassa; então, conclui que Deus está abrindo a porta do ministério. Ao contrário, vocação pastoral é quando todas as outras portas estão abertas, mas você só anseia entrar pela porta do ministério. O chamado de Deus é irrevogável e intransferível. Quando ele chama, chama eficazmente. Os vocacionados não são profissionais, frutos de uma decisão meramente humana nem são sacerdotes separados por uma herança familiar. São homens separados com um propósito divino”.

 CARACTERÍSTICAS DO CHAMADO

Certamente nem todos são chamados por Deus da mesma maneira. Deus chama pessoas diferentes, em circunstâncias diferentes, em idades diferentes, para ministérios diferentes. Ao olharmos para os homens de Deus, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, encontramos pessoas com diversos chamados. O chamado de Deus é intransferível, irrevogável e é uma chamada eficaz. Com ele obtemos a firmeza de propósito para o ministério sem olhar para trás.

Como já falamos o chamado não ocorre da mesma maneira com todos os vocacionados. Para algumas pessoas a chamada pode ser repentina; para outras, pode ser gradativa. Uma pessoa pode não sentir nenhum chamado até ser incentivada por outras pessoas. Veja o exemplo de Eliseu:

“Partiu, pois, Elias dali, e achou a Eliseu, filho de Safate, que andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele, e ele estava com a duodécima; e Elias passou por ele, e lançou a sua capa sobre ele. Então deixou ele os bois, e correu após Elias; e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe, e então te seguirei. E ele lhe disse: Vai, e volta; pois, que te fiz eu? Voltou, pois, de o seguir, e tomou a junta de bois, e os matou, e com os aparelhos dos bois cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram; então se levantou e seguiu a Elias, e o servia”. (1Re 19.19-21 – ACF)

O exemplo da vida de Elizeu se repetiu na vida do jovem teólogo João Calvino. Diz a história que João Calvino passou a noite em Genebra depois que o inflamado pregador Ferrel lhe apontou o dedo e disse: “Se você não ficar aqui em Genebra e não ajudar o movimento da Reforma, Deus o amaldiçoará!”. É certo que foi algo incomum, mas será que alguém discorda de que Calvino fora chamado por Deus para ministrar em Genebra? Pergunta Lutzer.

Outro exemplo que temos é o chamado de Jeremias, que foi chamado por Deus ainda criança.

“Assim veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta. Então disse eu: Ah, Senhor DEUS! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino” (Jr 1.4-6 – ACF)

O apóstolo Paulo teve um chamado direto apesar de ser perseguidor da Igreja.

“E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote. E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém. E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer” (At 9.1-6 – ACF).

 “E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2 – ACF)

 “Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes anunciei primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento” (At 26.19-20 – ACF)

No entanto, vemos algo comum em todos eles, foi o Senhor quem os comissionou. Com isso podemos aprender algumas lições:

O Senhor é quem dá pastores à Sua Igreja. Ao olharmos para a vida dos comissionados pelo Senhor através da lente das Escrituras Sagradas, nós encontramos pessoas que questionaram o seu chamado, pois não se viam capazes para realizar tão grande obra. Eram pessoas que, humanamente falando, não tinham condições de exercer o chamado divino. Mas com isso aprendemos que quem comissiona também capacita. Vejamos alguns exemplos bíblicos. Moisés era pesado de língua - gago (Êx 4.10); Jeremias não passava de uma criança (Jr 1.6); Paulo se considerava o menor dos apóstolos e o maior dos pecadores, no entanto o Senhor o colocou no lugar de maior honra na história da Igreja. Pedro se via como um homem pecador (Lc 5.8-10). Aprendemos com esses exemplos que nenhum pastor pode fazer a obra do Senhor de forma eficaz com altivez e orgulho. A soberba precede a ruína. A vaidade é a antessala do fracasso. Toda glória que não é dada a Deus é glória vazia. Não estamos no ministério porque somos alguém, estamos para anunciar o único que é digno de receber toda honra, glória e louvor. Estamos no ministério mediante a graça de Deus e não por capacidade humana.

Deus dá Pastores à Sua Igreja. Em Efésios 4.11, nós encontramos a relação de cinco ministérios específicos, apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. A maioria dos teólogos entende que pastores e mestres constituem um só ofício com dupla função. O pastor ensina e exorta. A sua função é alimentar, cuidar, proteger, vigiar e consolar as ovelhas (At 20.28-30).  Embora todo pastor deva ser mestre, nem todo mestre é pastor.  Atualmente nós temos visto uma distorção em relação ao que realmente seja ser pastor e pastorear.

Para muitos o pastorado é simplesmente um status. Um título que foi alcançado através do estudo em um seminário. Por isso que encontramos muitos pastores incrédulos; e por não ter fé, o pastor incrédulo tem que direcionar seu ministério e seu culto para áreas onde sua incredulidade passe mais despercebida. Daí, a liturgia formalista, o ritual litúrgico elaborado, as recitações, as fórmulas, os paramentos, as cores, os símbolos, tudo voltado para ocupar os sentidos de maneira que a fé não faça falta. Não estou afirmando que toda igreja com liturgia formalista seja necessariamente liderada por um pastor sem fé; apenas que é mais fácil disfarçar a incredulidade em custos assim.

Mas se existe o infiel, existem também os fiéis. Os que levam Deus a sério e o seu chamado para o ministério. São homens que deixaram seus projetos para realizar o projeto de Deus. Que abraçaram a causa do Mestre sabendo que o que estavam fazendo era para glória, honra e louvor do Senhor dos senhores apenas. Homens que podem falar como o apóstolo Paulo:

“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24 - ACF)

“Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tito 1.7-9 – ACF)


Notas:

1 – Lutzer, Erwin. De Pastor Para Pastor. Ed. Vida, São Paulo, SP, 2001: p. 14.
2 – Lopes, Hernandes Dias. De: Pastor A: Pastor. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 35.
3 – Lutzer, Erwin. De Pastor Para Pastor. Ed. Vida, São Paulo, SP, 2001: p. 16.
4 - Lopes, Hernandes Dias. De: Pastor A: Pastor. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 38.
5 – Lopes, Augustus Nicodemus. O Que Estão Fazendo Com a Igreja. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 5ª Reimpressão, 2010: p. 76.