sexta-feira, 12 de abril de 2013

FONTES NÃO CRISTÃS QUE ESCREVERAM SOBRE JESUS




          Jesus Cristo nada escreveu, apesar de haver milhares de livros escritos a seu respeito. Viveu na terra há cerca de dois mil anos. Ele pertenceu a um povo que, segundo as Escrituras, era o povo escolhido de Deus. No passado, eles eram conhecidos como povo de Israel, entretanto, na época de Jesus, eram também chamados de judeus. Jesus viveu na terra que havia sido lar de seu povo por centenas de anos, uma faixa de terra situada no litoral oriental do mar Mediterrâneo.

          Seus ensinos atraíram as classes menos favorecidas, especialmente os pobres e desprezados, o que fazia com que os líderes religiosos ficassem intrigados com o que Ele dizia a ponto de planejarem sua morte. Depois de “calarem” o rei dos judeus, seus seguidores continuaram a espalhar a sua mensagem. O que eles diziam sobre Ele deu início a um novo movimento, primeiro entre os judeus, depois entre os gentios, chamado cristianismo.

          Impérios surgiram e se foram, civilizações inteiras desapareceram; revoluções militares, convulsões sociais e políticas mudaram a ordem do nosso mundo. Mas aquela pequena comunidade de pescadores fundada pelo judeu Jesus, da aldeia de Nazaré, a sua igreja, permanece em pé até hoje, como um rochedo firme no meio de um mar em contínuo movimento.

          Os críticos da Bíblia alegam ou sugerem que os documentos do Novo Testamento não são confiáveis, pois foram escritos pelos discípulos de Jesus ou por cristãos posteriores. Mencionam como prova que não há confirmação da existência de Jesus em nenhuma fonte não-cristã. Vejamos.


I.              FORA DAS ESCRITURAS
          Algumas informações sobre Jesus podem ser extraídas dos historiadores que foram contemporâneos dele ou viveram logo depois. Ele é mencionado pelos historiadores romanos (Anais XV.44), Plínio, o jovem (Epístola X.96), Suetônio (Claudio, 25; Nero 16) e pelo famoso historiador judeu Flávio Josefo, em uma passagem suspeita de conter interpolação (Ant. XVIII. 3.3.).

II.            FLÁVIO JOSEFO (37/38 – 100 d.C.)
          Historiador judeu, filho de sacerdote, fariseu de família abastada. No ano 66 estava comandando a guerra judaica contra Roma na Galiléia, onde foi preso. Tendo profetizado a ascensão de Vespasiano ao poder, quando isso realmente se concretizou Vespasiano o libertou das cadeias. Desde então viveu sob a proteção dos flavianos em Roma, onde compôs seus escritos históricos e apologéticos. Ele não menciona Jesus em sua Guerra judaica, mas o menciona por duas vezes nas Antiguidades judaicas (Ant. 18.63s; 20.200), sua historia do povo judeu.

          Em Ant. 2º.2oo Josefo descreve o julgamento e apedrejamento de Tiago e de outros por transgredirem a lei, de acordo com o Sinédrio dirigido pelo sumo sacerdote Ananos no ano de 62. Josefo apresenta Tiago como “irmão de Jesus, que é chamado Cristo” (Tou adekvou Igsour Kecolemor Wqistor), identificando-o assim por meio de seu irmão mais conhecido.

A Tetimonium Flavianum (Ant. 18.63s.)
          O chamado Tetimonium Flavianum (Ant. 18.63s.), que é dado por todos os manuscritos de Josefo sem variação digna de menção, onde relata sobre Jesus Cristo, é o seguinte:


Neste tempo vivia Jesus, um homem sábio, se é que se pode chama-lo um homem. Ele realiza feitos incríveis e era o mestre de todos os que aceitavam com alegria a verdade. Desta forma ele atraiu judeus e também gentios. Ele era o Cristo. E apesar de Pilatos, movido pelas pessoas mais eminentes de nosso povo, tê-lo condenado à morte, seus discípulos não lhe foram infiéis. Apareceu-lhes pois em vida no terceiro dia; os profetas enviados por Deus haviam anunciado antecipadamente isso e outras coisas maravilhosas sobre ele. Até o dia de hoje subsiste o povo dos cristãos, chamados assim segundo o seu nome.

          Desde o século XVI esse texto tem sido objeto de fortes controvérsias por especialistas de todas as crenças. Alegam ser duvidoso que um judeu que viveu e trabalhou fora do contexto cristão tenha dito tais coisas sobre Jesus. Discutiu-se em primeiro lugar se o parágrafo precisa ser interpretado como testemunho autêntico de Josefo ou se é uma interpolação cristã. No séulo XX o debate deslocou-se cada vez mais para a pergunta se o Tetimonium Flavianum tem por base um relato mais antigo de Josefo, que teria sido reelaborado por Cristãos, e se é possível reconstruir o fraseado ou a tendência desse relato original de Josefo. Assim, três hipóteses são apresentadas: a autenticidade, a interpolação, a interpolação e a reelaboração [17].


Anano, o mais jovem, cuja nomeação para sumo sacerdote acabei de citar... pertence à seita dos saduceus, que, como já se observou antes, é mais inflexível e impiedosa no tribunal do que todos os outros judeus. Ananos acreditou que tinha uma oportunidade favorável para a satisfação dessa sua dureza de coração, porque Festo estava morto e Albino ainda estava a caminho [18]. Por isso, ele reuniu os juízes do Sinédrio e pôs diante dele um homem de nome Tiago, irmão de Jesus, que é chamado Cristo, e alguns outros. Ele os acusou de transgressões da lei e os mandou para o apedrejamento. Mas isso exasperou até os mais zelosos observadores da lei, que mandaram um encarregado ao rei [19] com o pedido de exigir por escrito de Ananos que desistisse de quaisquer outras ações, pois não havia sido correto em seu primeiro passo. Alguns deles foram ter com Albino... e o informaram de que Ananos não tinha nenhuma autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento. Em virtude desse incidente, Agripa o destituiu de seu cargo de sumo sacerdote que ele ocupara por três meses...


III.           TÁCITO (55/56 – 120 d.C)
          P. Cornelius Tacitus, membro da aristocracia senatorial, ocupou cargos habituais (foi procônsul da Ásia em 112/113), entretanto ficou conhecido como historiador por suas duas grandes obras históricas: as Histórias (c.105 – 110) e os Anais (c.116 – 117).

          Tácito, em sua biografia, relata os cincos primeiros anos de governo do Imperador Nero, chamado quinquennium 54 – 58 d.C. (Ann 13) e o reino de horror que se seguiu a este (Ann 14 – 16); entre os exemplos desse período está a execução cruel de cristão “Afflicti suppliciis christiani, genus hominum superstitionis novae ac maleficae – foi aplicada pena de morte contra os cristãos, um grupo de pessoas de uma superstição nova e maléfica” (Nero 16.2). O motivo pelo qual ele se refere aos cristãos é o incêndio de Roma no ano de 64 d.C (Ann 15.38-44), que Nero atribui aos cristãos para desviar a suspeita de si próprio.

          Ele descreve de forma breve e precisa o que sabe sobre o autor (auctor) da superstição, a fim de esclarecer a origem dos Christiano [20], que são odiados no meio do povo por causa de seus vícios (Ann 15.44,3):


Mas nem todo o socorro que uma pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiriam que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamados de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda cidade de Roma (Anais XV.44).


          Tácito descreveu preconceitos difundidos sobre os cristãos junto com poucas, no entanto bastante precisas, informações sobre Cristo e o movimento cristão.


IV.          PLÍNIO, O JOVEM (61 – 120 d.C)
          Plinius Caecilius Secundus era membro da aristocracia romana, advogado e funcionário público. Por volta de 111 d.C., Plínio foi enviado pelo imperador Trajano (98 – 117) à província da Bitínia e pronto para averiguar acusações contra os cristãos. Nesse período ele manteve ampla correspondência com Trajano, do que nos restou uma coleção de dez volumes. Numa dessas cartas, Plínio descreve as práticas de adoração dos primeiros cristãos:


...quod essent soliti stato die ante lucem convenire carmenque Christo quase deo dicere secum invicem seque sacramento non in scelus aliquod stringere, sed ne furta, ne latrocina, ne adulteria committerent, ne fidem fallerent, ne depositum adpellati abnegarent..
[Eles tinham] o costume de se reunir antes do amanhecer num certo dia, quando então cantavam responsivamente os versos de um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros a não cometer maldade alguma, não defraudar, não roubar, não adulterar, nunca mentir, e a não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo (Epístola X, 96).


          Nesse relato, Plínio confirma várias referencias do Novo Testamento, entre elas, e principal, que os cristãos adoravam Jesus como seu Deus.


V.            SUETÔNIO
          Caius Suetonius Tranquillus era membro da ordem dos cavaleiros, advogado, amigo particular de Plinius Caecilius, que lhe abriu os caminhos para os mais altos cargos públicos sob o governo dos imperadores Trajano e Adriano. Desse modo, Suetônio obteve acesso a todos os arquivos reais para redigir sua obra mais importante, a biografia dos imperadores (De vita Caesarum – Vida dos Césares). Essas Vitae, quase que integralmente conservadas, descrevem em oito volumes a vida de todos os doze césares, de Júlio César a Domiciano.

          O motivo da menção a Cristo foi uma expulsão de judeus de Roma sob o governo do imperador Cláudio (41 – 54), que também é citada em Atos 18.2: “Cláudio havia decretado que todos os judeus se retirassem de Roma (dioti o jkaudior eiwe diatanei ma amawyqgsysi pamter oi Ioudaioi ei tgr Oylgr)”. Sobre Cristo, que é referido Charestus, ele diz o seguinte:


“Judaeos impulsore Chresto assidue tumultuantes Roma expulit (Ele expulsou de Roma os judeus que, incitados por Chrestus, não paravam de provocar tumultos” – Vida de Cláudio, 25.4).
Escreveu ainda: “Nero infligiu castigo aos cristãos, um grupo de pessoas das a uma superstição nova e maléfica” (Vida dos Césares, 26.2).


VI.          MARA BAR SERAPION
          Estóico sírio, originário de Samosata, Mara bar Serapion escreve uma carta, quando de sua prisão (em lugar desconhecido), ao filho Serapion. A carta contém inúmeros conselhos e advertências que Mara faz ao filho em face de sua possível condenação. Assim como Salomão, ele recomenda a sabedoria como único bem e conteúdo de vida pelo qual se deve lutar. A carta contém uma aparente referência a Jesus:


Que vantagem os atenienses obtiveram em condenar Sócrates à morte: Fome e peste lhes sobrevieram como castigo pelo crime que cometeram. Que vantagem os habitantes de Samos obtiveram ao pôr fogo em Pitágoras? Logo depois sua terra ficou coberta de areia. Que vantagem os judeus obtiveram com a execução de seu sábio rei? Foi logo depois após esses acontecimentos que o reino dos judeus foi aniquilado. Com justiça Deus vingou a morte desses três sábios: os atenienses de sua terra, vivem completamente dispersos. Mas Sócrates não está morto; ele sobrevive aos ensinos de Plantão. Pitágoras não está morto; ele sobrevive na estátua de Hera. Nem o sábio rei está morto; ele sobrevive nos ensinos que deixou (Manuscrito siríaco, add 14, 658; citado em Geisler, p. 451).

          Esse texto corrobora com os evangelhos sinópticos em suas afirmações: os judeus foram responsabilizados pela morte de Jesus, conforme a afirmação do Novo Testamento (1 Ts 2.15; At 4.10); de semelhança, alguns interpretam que a derrota judaica perante os romanos era um castigo pela crucificação de Jesus  (cf. Mt 22.7; 27.25); Jesus “rei sábio” dos judeus remonta da mesma forma a fontes cristãs (Mt 2.1 ss., os sábios buscam recém-nascido rei dos judeus) e à tradição da paixão (especialmente na entrada triunfal, no escarnecimento, no interrogatório de Pilatos e no titulus na cruz). Assim, não encontramos na carta de Serapion nenhuma imagem de Jesus diversa do que o cristianismo afirma.


VII.         TAMULDE
          As obras talmúdicas mais valiosas com relação ao Jesus histórico são aquelas compiladas entre 70 e 200 d.C. durante o denominado Período Tanaíta. O texto mais significativo é o tratado da Mishnah:


Na véspera da páscoa eles penduraram Yeshu e antes disso, durante dias o arauto proclamou que [ele] seria apedrejado 'por prática de magia e por enganar Israel e fazê-lo desviar-se. Quem quer que saiba algo em sua defesa venha e interceda por ele'. Mas ninguém veio em sua defesa e eles o penduraram na véspera da Páscoa (Talmude Babilônico, Sanhedrin 43a).


          Essa passagem confirma a crucificação, a época do evento na véspera da Páscoa e a acusação de feitiçaria e apostasia.


VIII.        AVALIAÇÃO HISTÓRICA
          As notícias sobre Jesus em autores judeus (Josefo) e pagãos (Tácito e Mara bar Serapion) mostram que na antiguidade a historicidade de Jesus era pressuposta. Os três autores, um aristocrata e historiador judeu, um filósofo sírio e um romano e historiador, de contextos distintos, utilizam informações sobre Jesus de maneira autônoma. Todos sabem da execução de Jesus, ainda que dê forma diferente: Tácito responsabiliza Pôncio Pilatos, Mara bar Serapion o povo judeu e Josefo a aristocracia judaica e o governo romano.


[17] Para uma melhor compreensão sobre as hipóteses possíveis, ver THEISSEN, Gerd. Jesus histórico. São Paulo: Loyola, 2004. P. 86.

[18] Pórcio Festo (60-62) e Luceio Albino (62-64) eram procuradores romanos na Palestina. Como festo morreu inesperadamente, houve um vácuo de poder após sua morte até chegada de seu sucessor.

[19] A leitura chrestianos não é certa, pois nos manuscritos mais antigos e confiáveis foi corrigida a partir de chrestiano Chrestianos é o vácuo de poder após sua morte até a chegada de seu sucessor.

Extraído do Modulo II; matéria “Cristologia”; “Faculdade Teológica Betesda”; P. 35 a 38.
Digitado por Fabio Campos