domingo, 13 de janeiro de 2013

TEOLOGIA SEM MISERICÓRDIA



Por Fabio Campos

Texto base: “Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios” (Mt. 9: 13 NVI)

          Por muitas vezes esquecemos de fato o real motivo da vinda de nosso Senhor e os propósitos de Deus a respeito da encarnação do Verbo. Talvez seja esta a advertência feita por Jesus direcionada aos fariseus. O comentário bíblico Moody traz uma nota muito interessante acerca deste versículo: “Uma atitude misericordiosa para com os espiritualmente necessitados é muito melhor do que a mera formalidade nas obrigações religiosas (sacrifício) sem nenhuma preocupação com os outros”.

          Infelizmente vemos nos dias de hoje uma teologia sem misericórdia. E isso não está restrito apenas a um grupo. São em todos! Alguns calvinistas só sabem pregar a respeito de “eleição” e “predestinação”. Tratam os que discordam de sua teologia com desdém! O reformador inglês John Bradford, cujas palavras eram frequentemente citadas por Whitefield diz: "Que o homem vá primeiro à escola secundária da fé e do arrependimento, antes de ir à universidade da eleição e da predestinação". Sabias palavras e dica preciosa aos pregadores que não tem outro tema para ser pregado.

          Do outro lado também é verdade. Alguns arminianos tem a prepotência messiânica. Pensam que vão salvar o mundo por meio do esforço de seu braço. Acham que escolheram a Deus e não Deus que os escolheram. Pregam por diversas vezes uma “graça legalista”. Acreditam que podem no seu esforço “cuidar da sua salvação” (não me refiro ao ato de se santificar).

          Creio ser esta a queixa de Jesus para com os fariseus: “pregam com a teologia, mas esquecem do coração”. Esquecem-se da misericórdia de Deus que alcança todos os povos. Não cabe ao homem saber quem Deus escolheu, mas sim pregar o evangelho a todos, e aqueles que de fato foram chamados, também serão justiçados pela fé, a qual vem por intermédio da palavra, pregada pelos filhos de Deus.

          Lendo o livro de Jonas, percebi seu anseio em enquadrar Deus dentro do seu conceito teológico: “Jonas, porém, ficou profundamente descontente com isso e enfureceu-se. Ele orou ao Senhor: ‘Senhor, não foi isso que eu disse quando ainda estava em casa?” (Jn. 4:1-2 NVI). Jonas ficou furioso com Deus por ter Ele agido de misericórdia para seus inimigos. O “predestinado” e “eleito” Jonas, junto a seus irmãos “hipercalvinistas”, de forma alguma queriam que Deus usasse de misericórdia para os ninivitas. Os fariseus ficaram perplexos com a atitude de Jesus ter chamado Mateus, um publicano odiado, que prestava serviço a Roma cobrando impostos dos Judeus, para participar de uma refeição. O pensamento deles era de que “nós somos o povo escolhido; como pode Deus chamar a esse povinho, eles não conhecem as 95 teses de Lutero, nunca leram as institutas de Calvino, tampouco sabem a confissão Belga, o catecismo de Heidelberg e o Cânones de Dort. Tem outra cousa ainda, discordam em alguns pontos do catecismo de Westminster”.

          Meu amigo e irmão Renan Lima, Calvinista, expressou bem este tipo de atitude, a qual tem uma teologia maravilhosa, mas sem misericórdia: “Se, à parte da verdadeira fé em Jesus Cristo, eu julgo ser necessário professar as "doutrinas reformadas", o "calvinismo-de-cinco-pontos", o "puritanismo inglês do século XVII", o "teonomismo genebrino" etc, o que eu prego, na verdade e na prática, é a salvação pelas obras e nada mais”. O reformador João Calvino deixou uma dica preciosa à igreja nesta frase: “Não fechemos, pois, por nossa desumanidade, a porta da misericórdia de Deus, a qual se apresenta a nós tão liberalmente”. O pensamento de Jonas estava com base na natureza egocêntrica do homem: “Eu sabia que tu és Deus misericordioso e compassivo, muito paciente, cheio de amor e que prometes castigar, mas depois de arrependes” (Jn. 4: 2 NVI). Portanto, a natureza humana deseja vingança, ira, que fogo dos céus caia sobre os samaritanos “heréticos” que discordam da teologia farisaica. Ao contrario, Deus deseja misericórdia; não destruir o que está caído, mas restaurar, por amor ao seu nome.

          Em minha opinião, a teologia calvinista é o método mais coerente para a interpretação das Escrituras. Admiro os puritanos, tento honrar os reformadores por meio dos meus ensinos. Mas acima de tudo, existem pessoas! Nossa teologia tem que ser ensinada com o coração, com base na misericórdia. Disto Deus se agrada! Antes de ser chamado de Calvinista, Luterano, dizer que se é de Paulo ou de Pedro, logo prefiro ser chamado de filho de Deus, apenas porque Cri!

          Deus usa todos os métodos, e bem como disse o reformador John Bradford, deixemos para os acadêmicos esses assuntos controvertidos a despeito da eleição e predestinação diante do publico de Nínive; passemos a ministrar o arrependimento, perdão, e justificação para todo aquele que crer. Tem gente mais interessado em defender seu conceito teológico do que edificar vidas! Pois é isto que agrada o autor da vida: “Mas o Senhor lhe disse: ‘você tem pena dessa planta (talvez sua tese de mestrado; grifo Fabio:), embora não a tenha podado nem a tenha feito crescer. Ela nasceu numa noite e numa noite morreu. Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade (pessoas, homens criados a imagem e semelhança de Deus; Grifo Fabio:)?” Jn. 4: 10-11 NVI

         Pense nisso meu amado irmão em Cristo. Seja um estudioso! Mas coloque paixão por Deus em sua teologia. Demonstre essa verdade em suas atitudes no seu dia-a-dia, em compaixão com a miséria humana. Talvez aquele que você diz não ser um eleito nem predestinado, possa ser ele um escolhido deste a eternidade passada. Deus não desistiu de Nínive, pois Ele deseja misericórdia ao invés de sacrifícios!

SOLI DEO GLORIA!

Fabio Campos