sábado, 5 de janeiro de 2013

BREVE TESTEMUNHO DE CONVERSÃO DO PR. PAULO ROMEIRO


Salvo por Jesus

          Nasci num lar tradicionalmente católico e, desde a infância, estive envolvido com a igreja, ajudando a celebrar a missa e várias outras atividades. Mais tarde, fui para o seminário, onde passei cinco anos preparando-me para o sacerdócio, o que era meu grande sonho.

          Lembro-me da sede espiritual que me dominava naquela época de seminarista católico. Quantas vezes coloquei pedrinhas dentro de meus sapatos, e rezei ajoelhado em cima de grãos de milho. Dormia debaixo da cama, passava dois ou três dias sem tomar água, fazendo sacrifícios para agradar a Deus, a exemplo dos santos na era medieval. Isso não me foi imposto pelos padres. Era algo que fazia espontaneamente. Quando faltavam dois anos para tornar-me noviço, percebi que não era aquilo que eu queria.  Foi difícil deixar o seminário, pois tanto os padres como os colegas achavam que eu realmente tinha uma genuína vocação para o sacerdócio.

         Meu pai nunca foi interessado pelos valores espirituais. Entretanto, houve um tempo em sua vida em que as coisas começaram a caminhar de forma negativa. Ele começou a receber visitas de espíritos, em seu quarto, quase todas as noites. No principio ele temia essas experiências. Eu o escutava durante as noites falando com os espíritos, e às vezes na manhã seguinte, queixando-se com minha mãe: “Não pude dormir esta noite. Os espíritos vieram e me incomodaram. Não pude dormir”. 

         Com o passar do tempo, meu pai deixou de ter medo dos espíritos. Até começou a conversar com eles, e muitas vezes o escutei dizer algo como: “Quem são vocês? Como se chamam? Que desejam de mim? O que posso fazer por vocês para que me deixem em paz”? Meu pai chegou a ser mais e mais atrevido com esses espíritos. Começou a ser grosseiro e brusco com eles, e com o tempo dizia coisas como: “Deixem-me só! Vão para o inferno”! Já não conseguia trabalhar direito e ficou profundamente deprimido. Isto o levou a envolver-se com o espiritismo. Começou a peregrinar de um centro a outro – uma prática que durou cerca de 30 anos. Quanto mais ia a esses centros, pior ficava.

          Logo comecei a sentir-se afetado também por tudo isso. Comecei a receber visitas de espíritos em meu quarto. Podia escutar seus passos à noite pela casa. Sabia exatamente onde eles estavam na casa – em outro quarto, na cozinha ou na sala. Podia ouvir seus passos que vinham em direção a meu quarto. Podia escutar abrirem a porta e sentir que havia alguém mais comigo no quarto. Não podia vê-los, contudo sentia claramente sua presença espantosa, diabólica junto de mim.  

         Durante essas ocasiões, um medo paralisante me sobrevinha de modo insuportável. Minha vida chegou a ser dominada pelo temor. Apesar do intenso calor durante o verão, mantinha-me debaixo dos cobertores. Ainda que nessa condição suasse profusamente, mantinha-me assim, tal era o meu medo. Isso durou não apenas algumas semanas, mas por vários anos. Finalmente, tive que mudar minha cama para o quarto de meus pais, pois não conseguia dormir a sós em meu quarto. Meu pai e eu começamos então a compartilhar experiências noite adentro.

- Você ouviu isso filho?
- Sim, eu escutei!
- Ouviu isso de novo?
-Sim!

         O relacionamento entre meu pai e mim foi sempre precário. Um dia ele me “convidou” para ir embora de casa. Por causa disso fui para São José dos Campos e lá consegui um trabalho da Embraer, uma fábrica de aviões. Trabalhei ali quase oitos anos. Quando comecei meu novo emprego, um rapaz da Assembléia de Deus, o Luiz Cláudio, veio compartilhar comigo as boas novas do Evangelho.

        Lembro-me da primeira vez em que ele tentou me evangelizar. Fiz algo para desanimá-lo de uma vez para sempre. Perguntei-lhe:

- Você é formado em quê? Estudou teologia e filosofia?

         Ele me disse que não, e logo passei a humilhá-lo, dizendo:

- Você não está à altura de me ensinar religião. Eu passei cinco anos num seminário católico, estudei teologia e muitas outras matérias. Se você quer discutir filmes ou futebol, tudo bem; mas religião não! Você não está à altura de falar-me sobre isso.

         Naquela noite, o Luiz Cláudio foi a sua igreja, escreveu meu nome num pedaço de papel e entregou-o ao líder da igreja, com a seguinte informação:

- Vamos orar pelo Paulo Romeiro. Ele parece um demônio, porém Deus pode muda-lo.

          E oraram por mim. Depois comecei a ler uma Bíblia católica que minha irmã Terezinha havia deixado no meu quarto de pensão. Houve uma época em que eu lia muito o Evangelho de João, capítulo 13 a 17 e brotou dentro de mim uma sede intensa pela Palavra de Deus. Muitas vezes eu chorava enquanto lia. O Espírito Santo já estava trabalhando em meu coração.

         Algum tempo depois, Cláudio me convidou para ir à igreja e fui com ele numa quinta-feira à noite. Era uma igreja da Assembléia de Deus e confesso que não gostei do culto devido às manifestações de louvor a Deus. Depois eu quis ir com ele a um culto de ceia, pois estava curioso para saber como é que os crentes tomavam a “comunhão”. No dia seguinte era um domingo e, à tarde, fui ver o filme. Bem-Hur. Este filme teve um impacto profundo em mim. Num certo instante do filme, quando o oficial romano levantou o chicote para bater em Jesus por ter dado água a Bem-Hur, Jesus simplesmente olhou para o romano e ele ficou totalmente sem ação. Naquele momento, senti-me sacudido e, enquanto a imagem de Jesus estava projetada na tela, ouvi uma voz – não audivelmente, mas em meu coração, que me dizia: “Este é o Deus a quem deves seguir”. Dessa forma saí do cinema uma pessoa diferente, e considero que aquele foi meu momento de conversão.

No dia seguinte, uma segunda-feira, retornei a fabrica e perguntei ao Cláudio:

- Tem culto hoje à noite?
- Não! Respondeu-me.
- Quando é o próximo culto? – perguntei.
- Quinta-feira à noite!
- Mas eu quero aceitar a Jesus!
- Você tem que esperar até quinta-feira à noite!

          Esse era o costume naquela época em algumas igrejas. As pessoas só aceitavam Jesus ouvindo um apelo após a pregação e vindo à frente em seguida. Nunca vou me esquecer daquela noite, 11 de novembro de 1971. Fui para casa, jantei, peguei minha Bíblia e segui para a igreja. Cheguei trinta minutas antes do culto. Assim que entrei no templo, caí de joelhos e pus-me a chorar. Não sabia orar, porém assim mesmo me ajoelhei. A única coisa que me lembro de ter dito a Deus naquela noite foi: “General, teu soldado está aqui. Se existe um lugar no teu exército, estou pronto para lutar”. O resto da noite eu só chorei e chorei. Foi algo fantástico.

          Depois de aceitar Jesus em meu coração, fiquei possuído de uma “loucura santa”. Ria e chorava ao mesmo tempo. Não sabia qual das duas coisas fazer, por isso fazia as duas ao mesmo tempo. Depois, andando pelas ruas, continuava sentindo a presença de Deus sobre mim de forma extraordinária e muitas vezes não conseguia controlar o pranto. Algumas pessoas que passavam, olhavam com pena para mim e diziam: “Coitado, tão novo e já perdeu o juízo”. Eles com certeza não tinham ideia do tamanho da benção.

         Um mês depois de minha conversão, decidi visitar meus pais. Quando entrei em sua casa, meu pai perguntou:

- Então agora é protestante?
-Sim!
         Isso foi tudo o que eu disse. Estava começando minha vida espiritual. Eu era apenas um bebê no Senhor, e não queria discutir com ele.

          Naquela noite, minha mãe preparou meu quarto, não com eles, mas separadamente, como dantes. Já não sentia mais medo dos espíritos. Nem sequer estava pensando neles. Não conseguia pensar em outra coisa a não ser em Jesus. Ajoelhei-me e passei uns quarenta minutos perante Deus em oração, com o rosto banhado em lágrimas de contentamento. Sentia um gozo inefável. Então li algumas passagens das Escrituras, e deitei-me em seguida.

         Enquanto descansava na cama, não pensava nos demônios. Pensava apenas em Jesus. Porém comecei a sentir medo. Veio sobre mim exatamente o mesmo medo de antes. E a primeira coisa que pensei foi: “Isto não pode ser Jesus! Ele nunca me traz medo. Só me traz alegria”. Rapidamente comecei a sentir uma horrenda presença satânica. Havia alguém no quarto comigo, junto a minha cama. Não podia vê-lo, porém podia senti-lo, exatamente como antes.

          Tentei chamar minha mãe, mas não consegui. Minha boca não se mexia. Tentei mover meu braço esquerdo e não consegui. Estava totalmente paralisado. Senti um calafrio nos pés que me subiu pelas pernas até a altura do peito. Na verdade não me lembro quanto tempo durou isso – se foram dez segundos, trinta segundos, uma minuto ou mais. Só sei que comecei a pensar no precioso sangue de Cristo. Pensei: “O sangue de Jesus está contra você”. De repente, a paralisia me deixou. Sentei-me na cama e pela primeira vez na minha vida falei diretamente com o diabo – tão alto que todos na casa podiam escutar-me. Disse-lhe:

- Diabo, por muitos anos tu tens atormentado a minha vida.  Porém quero perguntar-te algo nesta noite. Não podes ver que fui redimido e que estou lavado no sangue de Jesus? Fora! Ai de ti se tu voltares!

         Naquele momento, o quarto encheu-se de paz e eu dormi um sono tranquilo. Nunca mais o inimigo voltou para perturbar a minha paz.

          Sei que neste episódio sofri um ataque do inimigo, uma forma de opressão, mas não possessão. Ninguém esteve ali do meu lado para expulsar de mim algum demônio. Fiz apenas o que a Palavra de Deus ensina ao cristão: “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg. 4:7). Quanto ao adversário, o apóstolo Pedro recomenda “resisti-lhe firmes na fé” (1 Pe. 5:9). Pois bem, foi o que eu fiz, pela graça de Deus e o Senhor deu-me uma grande vitória.

         Comecei a servir a Deus evangelizando de todas as formas possíveis. Foram muitas às vezes em que eu e outros irmãos tivemos que tratar de pessoas possuídas por demônios, e, pela misericórdia de Deus, vi muitos casos de pessoas severamente endemoninhadas serem libertas por Jesus. Mas a batalha continua. Todo fim de ano, a AGIR e outros irmãos organizam um trabalho evangelístico, quando vamos à cidade de Praia Grande para evangelizar na noite de Iemanjá. São muitos quilômetros de praia cobertos de terreiros de candomblé, umbanda e outros. Passamos a noite toda intercedendo, evangelizando e aconselhando. Deus, por sua graça, tem-nos concedido grandes bênçãos ali, como conversões, libertações e o nome do Senhor Jesus tem sido glorificado. Que o Senhor sempre nos dê vitória contra o mal e que fiquemos com a Bíblia, o melhor livro de batalha espiritual.

Trecho extraído do livro: “Evangélicos em crise”; ROMEIRO, Paulo; Ed. Mundo Cristão, P. 151 a 155; no tema: “Batalha Espiritual”.

Nota Fabio Campos: Essa foi uma forma de honrar este grande homem de Deus, publicar seu testemunho em meu blog! O Pastor Paulo em minha opinião, na atualidade, é o principal referencial em nosso meio, o evangélico. Ele consegue misturar intelectualidade com simplicidade, culto racional com o fervor espiritual. Aconselho a todos a escutarem o programa de rádio que ele apresenta na musical FM 105,7, todos os sábados a partir das 13 hs. A logística do programa é muito rica, contendo pregação, respostas de dúvidas bíblicas e teológicas, “deu na mídia” (abordagem de algum fato relevante que ocorreu durante a semana), e por termino, tem o momento de oração.

        Fica aqui meu carinho a este irmão querido, o qual o tenho por referencia o equilíbrio, humildade, e o fervor espiritual.


          Paulo Rodrigues Romeiro é pastor e apologista cristão evangélico. Foi presidente do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP) em São Paulo, e atualmente dirige a Agência de Informações Religiosas (AGIR).

        Paulo Romeiro foi criado como católico e espírita e se tornou evangélico na década de 1970 em São José dos Campos. Em 1978 concluiu o curso de jornalismo pela Universidade Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, e foi aos Estados Unidos estudar na Escola de Ministério, de Morris Cerullo. Ele estudou teologia na Escola de Teologia de Melodyland em Anaheim, Califórnia; é mestre em teologia pelo Seminário Teológico Gordon-Cornwell. Foi ordenado ministro da Assembléia de Deus Americana em 1984 nos Estados Unidos e desenvolveu trabalhos evangelísticos. Em 2004 obteve o doutorado em Ciência da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

        Em 1988 ele voltou ao Brasil e se associou com o ICP e foi co-autor do livro Desmascarando as Seitas (CPAD) com Natanael Rinaldi, no qual avalia sobre uma perspectiva bíblica as doutrinas religiosas do mormonismo, as Testemunhas de Jeová, o espiritismo e outros movimentos. Ele se tornou presidente do ICP. Em 1997, deixou o ICP e fundou a AGIR.

        Preocupado com problemas doutrinários nas igrejas brasileiras, em 1993 publicou o livro Super Crentes: O evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade que refuta a Teologia da Prosperidade neo-pentecostal e critica seus propagadores, especialmente Kenneth E. Hagin e Valnice Milhomens, prefaciado pelo renomado missionário Russell Shedd. Em 1995 ele publicou uma seqüência, Evangélicos em Crise: Decadência doutrinária na igreja. Outro livro é Decepcionados com a Graça: Esperanças e frustrações no Brasil neo-pentecostal, que foi lançado na Universidade Metodista de São Paulo, contando com a presença de vários líderes evangélicos. Seu último livro é Religião e Alienação: Um estudo sobre os desafios e tensões do adolescente testemunha de Jeová (Editora Reflexão, 2009). Seus livros sobre os modismos nas igrejas evangélicas quase não receberam críticas diretas de seus opositores.

        Atualmente é pastor da Igreja Cristã da Trindade em São Paulo, uma igreja de teologia assembleiana, e é professor no curso de pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie 1. É casado com Simone e tem dois filhos.

Link dos dados citados: http://ictrindade.com.br/pr-paulo-romeiro/