domingo, 5 de junho de 2011

RAPOSINHAS de Araripe Gurgel



Raposinhas
* Araripe Gurgel

“Apanhai-me as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos”... (Ct. 2.15).

Não tropeçamos em montanhas, mas em pequenas pedras. As montanhas conseguimos enxergar: elas são grandes e ao longe podemos avistá-las. Porém o mesmo não acontece com as pedrinhas. Muitas delas estão à beira do caminho, prontas para nos fazer tropeçar.

A característica de muitas pessoas é a fraqueza de caráter, o que resulta fatalmente na prática de pecados considerados sem importância. Pequenas mentiras, maledicências, ligeiras fraudes, expressões de mau humor e muitas outras reações que, ao se repetirem, tiram de nós a sensibilidade da consciência.São essas centenas de coisinhas corriqueiras que acabam impedindo nossa comunhão com Deus.

O que o poeta bíblico quis dizer com "raposinhas"? Parece que elas gostavam de cavar ao redor das videiras cobertas de flores. Elas são as pequenas coisas a que não damos muita importância, mas que, infelizmente, teimam em estar presentes em nossa vida - é aquela palavra a mais, ao final da discussão, que não precisava ser dita, e você insiste sempre em dizer, é o gesto desprovido de mansidão, é a dureza de julgamento, são os ciúmes que a esposa não consegue esconder ou o perfeccionismo do marido que insiste em que tudo seja feito do jeito que você gosta.

Engana-se quem imagina que são os grandes problemas que destroem um casamento, uma família ou uma grande amizade. Pelo contrário, quando uma grave tormenta se abate sobre o lar, tal como um acidente de um dos familiares ou uma doença grave e repentina, a tendência dos membros da família é se unirem e estreitarem seu relacionamento para lutarem com todas as forças contra aquele "inimigo" indesejável.

Agora, difícil mesmo é lutar contra as "pequenas raposinhas" que aparecem sob o vinhedo, e pouco a pouco vão destruindo sua formosura, até que ele seque completamente. Muitos erros que cometemos, consideramo-los pequenos, sem importância, mas, por sua freqüência e  quantidade, devastam nossas vidas: "Não sabeis que um pouco de fermento leveda   toda a massa?” (1 Co 5:6).

Não nos desculpemos alegando que todos cometem tais erros. É exatamente no cotidiano das nossas vidas que nós, ao nos intitularmos "cristãos", portanto seguidores de Cristo, temos a oportunidade de agir de modo diferente ao de "todo o mundo". Na realidade, essas pequenas negligências a que nos permitimos farão com que "o ramo" não tenha fruto. (Jo 15:12).

A vinha estava em flor, prometia muito, e agora esta devastada. Não há fruto! Nossa comunhão com Deus está prejudicada. A leitura da Bíblia não tem mais o mesmo sabor, ou nunca fez parte de nossas vidas. Não achamos mais prazer na oração, e também não paramos mais para conversar com Deus. As reuniões de oração, os cultos de domingo, eram, para nós, um verdadeiro "oásis" refrescante, mas hoje não nos atraem mais ou nelas não mais encontramos  conforto.

Na vida da igreja, as "raposinhas" são aqueles pequenos acontecimentos desagradáveis, à princípio sem maior importância, mas, se não damos cabo deles, logo começam a perturbar o relacionamento dos irmãos, pequenas intrigas surgem aqui e acolá, e quando menos se espera, todo o vinhedo construído com tanto amor foi destruído - não pela ação maléfica do mundo nem tão pouco por uma investida insidiosa de Satanás.

Tudo isso são como imperceptíveis "raposinhas", que, às vezes, nem nos damos conta de sua existência em nossas vidas. Mas uma coisa é certa: o resultado é sempre devastador! Não há jejum e oração que mantenha o vinhedo bonito se, por outro lado, ele estiver sendo devastado pelas pequenas raposas.

Sansão derrotou inimigos fortíssimos, mas  foi vencido porque permitiu a ação destruidora de uma "raposinha" em sua vida. Gideão, grande herói da Bíblia que venceu batalhas com poucos homens, ao final de sua vida permitiu que uma pequena vaidade levasse Israel de volta à idolatria. Crentes amarram Satanás todos os dias nas grandes concentrações, mas não apanham as raposinhas que estão destruindo sua vida familiar.

E o que é mais grave, há cristãos, hoje, preocupados com a besta do Apocalipse, com maldição hereditária, com demônios territoriais, com a temperatura do inferno, com cura interior, e não fazem a menor idéia de que aquilo que eles devem temer e com que se devem preocupar de verdade, é  aquele olhar furtivo que lançam sutilmente ao sexo oposto.

Tem de se preocupar é com aquele sentimento de auto-suficiência que, devagarzinho,  os tem afastado do Deus vivo. Só há uma maneira de manter a videira bonita, a família saudável e a igreja abençoada: "apanhando" tudo aquilo que destrói uma relação de amor. Sim, apanhe tudo isso e dê um fim em nome de Jesus.                

Talvez o que o cristão mais precise hoje é reconhecer a existência dessas "raposinhas" em sua vida. Não é bom sinal se não estamos conseguindo dar cabo delas. É sinal de que alguma coisa vai mal  dentro de nós - é sinal  de que há um "sabotador" em nosso interior a destruindo aquilo que levou anos para crescer. É sinal de que não estamos bem conosco nem com Deus. Se tais sinais estão aparecendo em sua vida, preste bem atenção: já é hora de você afugentar essas raposinhas!

Que, a partir de hoje, você comece a enxergar aqueles detalhes que estão prejudicando o seu relacionamento com Deus. Aquelas “pedrinhas” que, muitas vezes, são deixadas de lado, mas que, com o tempo,  tornam-se grandes obstáculos. As vinhas estão em flor; não deixe que elas sejam destruídas por pequenas coisas.     

* Pastor na Igreja Crista da Trindade